Sempre sonhei em viajar sozinha desde muito nova. Colocar uma mochila nas costas e sair por aí sem ter que combinar nada com ninguém, nem horário, nem passeios ou programas. Porém, aos 21 anos tive um contratempo, justo quando realizava meu maior sonho.

Tive um visto negado no aeroporto de Londres , quando sozinha partia para o que seria minha primeira grande viagem. Fiquei muito decepcionada e triste na época, uma tristeza de não querer mesmo sair de casa. O pior era ter que aguentar piadas de “amigos” que não enxergavam a gravidade do problema.

Ok, eu sei que existem milhares de problemas que nós, mulheres, podemos enfrentar no dia a dia e ao longo de nossas vidas, e que, portanto, eu posso ter feito tempestade em copo d´água.

Mas, nesse caso de visto negado, eu senti na pele o que é preconceito e desconfiança. Afinal, para eles uma mulher viajando sozinha, ainda mais originando de um país de terceiro mundo, caracterizava ou prostituição ou busca por uma oportunidade melhor de vida.

Depois disso me coloquei no modo automático. Arrumei um emprego onde eu odiava o que eu fazia e com o dinheiro que eu ganhava comprei um carro, saía muito, torrava muito com baladas e bebidas e algumas viagens curtas. Tudo isso porque eu senti que não adiantava ter vontade e dinheiro, pois sair por aí solo era muito mais complexo e eu não estava pronta para resolver isso dentro de mim.

Mas a gente sabe que uma vez viajera, viajera para sempre

Cinco anos após o ocorrido, eu senti que o meu desejo de explorar não havia morrido. Estava apenas adormecido esperando pela minha decisão de voltar a sonhar. Na época, solteira, eu resolvi fazer minha primeira trip pelo Brasil mesmo. Fiquei na casa de amigos muito queridos e conheci um pouco da região Sul: Porto Alegre, Canoas, Canela e Gramado . Achei tudo maravilhoso. Não me senti mal por estar “sozinha” em destinos ditos como românticos e para casais.

Depois disso, comecei a planejar minha próxima trip que seria na América do Sul. Pesquisava muito, queria ver neve, queria ver tango, queria sair por aí, mas confesso que ainda estava insegura de sair do país novamente sozinha.

Para quem está nessa situação, já sabe que não existe tarefa mais difícil do que reunir nem que seja uma amiga sequer para fazer uma viagem. Ainda mais há 10 anos quando as redes sociais engatinhavam por aqui e as pessoas ainda achavam que viajar era coisa de rico. Por conta própria então? Me chamavam de louca por querer ir para um lugar desconhecido sem ser fluente na língua local e sem uma agência para organizar tudo.

É, eu sempre fui a ovelha viajante e isso era um saco, pois eu percebia que nem as minhas amigas tinham confiança nos meus planos. Mas quis o destino que um certo rapaz aparecesse em minha vida e achasse o máximo tudo o que eu falava sobre os meus planos, desde alugar apartamento em vez de ficar em hotel até ir à China adotar uma chinesinha.

Ele abraçou meus planos de uma forma incrível, começamos a planejar cada vez mais viagens, ir cada vez mais longe, e isso se tornou nosso combustível. Nove anos se passaram desde que ele chegou, já rodamos 20 países, muitas cidades e temos inúmeras histórias para contar.

 Mas aquele velho desejo de viajar totalmente sozinha ainda batia aqui dentro

No meio disso tudo, eu consegui algo próximo do que eu sonhava, pois organizar grupos de viagens se tornou parte do meu trabalho. E mesmo eu acompanhando meus grupos, sempre deixo um ou dois dias livres para que possa ter esse gostinho de ficar só, na minha própria companhia. E posso afirmar: é sempre a melhor parte de viagem. Mas foi conversando com ele e explicando esse meu desejo que chegamos ao consenso de que eu preciso fazer isso, por mim, pela minha realização pessoal.

Viajar sozinha sendo casada

Crédito: Janaína Gonçalves

Não é porque sou casada que devo ser obrigada a fazer todo tipo de programa com ele. A gente adora viajar junto, nos damos super bem, mas, no nosso caso, onde ele trabalha, permite 30 dias de férias ao ano, e eu sou autônoma. Posso trabalhar de onde estiver.

Eu sempre desejei, vou realizar, e espero que muitas outra vezes, o sonho de viajar sozinha. É uma experiência única que, acredito eu, todos deveriam ter ao menos uma vez na vida. A sensação de depender somente de você e de ser somente você a responsável pela concretização do seu sonho é sem dúvida a melhor.

Eu espero que muitas pessoas consigam compreender que estar solo não significa estar totalmente só, abandonada. Pelo contrário. A probabilidade de fazer amigos é muito maior, pois estar acompanhada faz com que muitas pessoas nem sequer cheguem perto da gente. E fazer amigos de outras regiões do país ou do mundo é sempre muito interessante, é uma troca cultural que não tem preço.

Se você, mulher, se enxergou aqui, sente que também tem esse desejo ou que simplesmente não consegue conciliar suas férias com seu marido, considere essa experiência rica e única. Estar casada é ótimo, mas ser respeitada dentro do relacionamento é melhor ainda. Um status de relacionamento não pode ser o fim de uma realização pessoal. Por mais que pareça difícil e assustador no início, no final você perceberá o quanto inesquecível pode ser esta experiência e o quão forte você sairá dela.

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