Quase fim de tarde e um solzinho agradável começava a se esconder no horizonte. Depois de horas presa dentro de um ônibus, tudo que eu queria era esticar as pernas e explorar um pouco a cidade na qual eu tinha de chegar. Andava despretensiosamente com a câmera fotográfica na mão pela avenida principal até que uma voz chama a minha atenção. Levo alguns segundos para começar a compreender o que está sendo falado e que as palavras são dirigidas a mim.

“Oi, linda! Ei, olha pra cá! Eu tenho um passaporte europeu e um coração bem grande.” (Tudo isso em inglês, tá? Só para ninguém ficar achando que se tratava de uma novela da Glória Perez em que as pessoas falam português em qualquer lugar do mundo).

Esse foi o incidente mais “grave” que aconteceu comigo em 10 meses mochilando sozinha. Sim, eu fiquei abalada. Eu queria começar a chorar no meio da rua. Pode não parecer muito quando se compara com a história da brasileira que foi abusada por um indiano num dormitório de hostel na Tailândia, mas é difícil se manter calma e no controle quando você percebe que há um carro cheio de homens passando bem devagar ao seu lado gritando coisas no meio da rua de uma cidade que você não conhece.

O engraçado é que isso não aconteceu em nenhum dos países onde as pessoas me mandavam tomar cuidado ao verem os meus check-ins. Não foi na Malásia de maioria muçulmana e cheia de mulheres andando de burca do meu lado. Também não foi na Eslováquia onde, segundo a crendice popular, eu poderia acabar estuprada, esquartejada, e sem os meus rins.

Muito menos o acontecido se deu na Tailândia, campeã de histórias de assédio com turistas e lotada de viajantes bêbados e sem noção achando que podem fazer tudo o que querem. O episódio aconteceu comigo na Alemanha, em Berlim , durante a semana e em plena luz do dia.

Se estivesse nas mesmas condições no Brasil, eu provavelmente teria respondido, como eu já fiz mais de uma vez. Mas, não estava. Eu estava num país diferente e com uma cultura totalmente diferente da minha. A única coisa que eu consegui fazer foi continuar andando em frente sem olhar pro lado como se não fosse comigo e torcer para que aquele carro seguisse para longe o mais rápido possível.

Depois de alguns segundos intermináveis o sinal abriu e o carro foi em frente, mas eu ainda levei uns dias para me sentir normal de novo, e naquela noite passada num dormitório misto, onde coincidentemente eu era a única mulher, não consegui pregar o olho.

O que eu tirei dessa história é que: assédio pode acontecer em qualquer lugar

Crédito: Think Olga / divulgação

Na Tailândia, na Alemanha, ou na esquina da sua rua. Ele aconteceu por eu ser mulher, e não pela minha localização geográfica. Por isso, não faz sentido eu deixar de fazer o que eu mais gosto na vida, viajar, pelo medo de ser assediada.

O fato de você ser uma mulher sozinha vai ser notado pelos outros sim, de forma que não aconteceria se você fosse um homem. Pode ser que seja algo negativo, como esse episódio da Alemanha, mas pode ser que seja positivo também. Como na vez em que uma família paquistanesa ficou com pena de mim no Japão e me deu uma carona. Eles tinham crianças no carro e talvez não fizessem a mesma oferta a um homem.

Então, eu prefiro seguir viajando, esperando que mais pessoas como aquela família paquistanesa apareçam pelo meu caminho, e que eu esteja ocupada demais com elas para me preocupar com aqueles que não entendem que uma mulher pode estar sozinha em qualquer lugar do mundo.

Saiba como agir caso sofra assédio viajando sozinha

Crédito: Think Olga / divulgação

 

Enquanto os homens não compreendem sobre os impactos negativos da masculinidade tóxica, nós, mulheres, devemos aprender a nos defender.

1- Peça ajuda para outras mulheres

Está sendo seguida? Ouviu assédio verbal? Procure imediatamente, ao seu redor, outras mulheres. Explique a situação e peça ajuda. Não fique sozinha.

2- Denuncie

O portal Consular, do Ministério das Relações Exteriores, explica como as brasileiras devem agir caso sofram assédio em outros países. “Cidadãs brasileiras que precisam de ajuda em outros países podem verificar a disponibilidade do serviço “Ligue 180 Internacional”. O número foi criado pelo Ministério das Relações Exteriores, pela Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) e pelo Ministério da Justiça para atendimento telefônico gratuito e confidencial às brasileiras vítimas de violência no exterior”.

Já as brasileiras que precisam de ajuda em países que ainda não dispõem do “Ligue 180” poderão contatar diretamente o serviço de atendimento da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) do Governo brasileiro pelo número 55 61 3799.0180.

Lembre-se NÃO SE CALE! Assédio é crime.

Crédito da ilustração principal: Think Olga / divulgação

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