Há quase 10 anos viajo sozinha. No começo foi, sim, um grito de liberdade, mas foi muito mais um medo quase adolescente de ver a vida passar e não aproveitar. Eu trabalhava com meu antigo noivo. Não conseguimos tirar férias juntos. O que fazer? Ficar 15 dias sozinha em casa, eu não ficaria. O jeito foi mesmo me organizar e partir sozinha. Eu tinha 15 dias. Viajei só 8. Achei que 15 era tempo demais, que poderia me sentir sozinha. Bobeira. Mal sabia eu. Escolhi ir para Cuba. Melhor decisão.

Chegando lá, eu só chorava. Dormir sozinha, planejar o dia sozinha, viver com meus pensamentos, isso tudo pesava. Estava muito presa ainda à minha vidinha aqui. Mas, bastaram dois dias em outro mundo para eu ficar cantarolante e saltitante. Chorei depois para voltar: “Só 8 dias? Isso não é nada! Quero ficar.”

Depois disso, basicamente, todo ano arranjava uma viagem só minha. Claro, se tivesse uma amiga que me acompanhasse, comemoraria. Mas se não tivesse, dava aquele calorzinho gostoso no peito: “Lá vou eu!”. Viagens de 4 dias, viagens de 1 mês… Não importava mais o tempo. Eu sabia que ia ser divertido. Como não seria? Era eu a minha companhia! E só eu sei como sou legal!

Com o tempo também as pessoas comentavam e eu me enchia de orgulho de mim mesma ao mesmo tempo que diminuía o feito. “Ah, que isso. Não tem nada de mais.” E, não sei por que cargas d’água, o “nada de mais” prevaleceu e eu esqueci da relevância que tem no mundo de hoje (e de todos os tempos) uma mulher sair às ruas sozinha. E estive pensando nisso.

Valorizando viagens feitas por mulheres

Recentemente, uma amiga pediu para agitar sua viagem de férias. Não é a primeira vez que viajará sozinha. Foi ano passado para Natal, acho eu, se me lembro bem. Ficou um tempo lá, acho que uma semana e encheu todos os seus dias de passeios e mais passeios. Achei normal. Tem gente que pensa que viajar sozinha significa ficar meditando, em silêncio absoluto, sem contato com pessoas. Não mesmo. Viajar sozinha é algo muito mais plural do que realmente estar sozinha. Não quer dizer, é claro, que isso não possa acontecer. Eu, por exemplo, adoro ficar só, eu e eu mesma e mais ninguém.

Quando começamos a conversar sobre sua viagem, além do básico (“O que você quer? Mato ou cidade? Praia ou cachoeira? Ficar sozinha ou com pessoas?), surgiram questões caras como: “Mas lá, se eu precisar de ajuda, como vai ser? E se der tudo errado, como voltarei para casa?”. Essas são perguntas de segurança que todos se fazem quando planejam viagem, mas com o diferencial de que, quando se é mulher, o cuidado é outro. Tem que ser outro. Infelizmente. Quando se viaja sozinha sendo mulher, independência no ir e vir é essencial.

Olhei para dentro do meu microciclo e vi quão poucas de nós nos permitimos estar conosco mesmas. Pensando em termos mais macro, vejo como isso é danoso para o todo. Pode ser por medo mesmo de uma sociedade patriarcal em que a mulher é vista como meno. Pode ser por achar que vai ser chato e que é melhor ter sempre alguém (já falei isso: Quem é mais legal que nós mesmas? Não tem!), pode ser por falta de experiência mesmo ou sei lá o quê. Motivos para não fazer é o que não falta. A gente não precisa enfocar neles.

E foi aí que me toquei: o que para mim estava sendo diminuído é, na verdade, um grito de empoderamento sem preço. Eu quebrei minha barreira de viagens sola há tempos. Mas ainda tem muita mulher que tem seus receios – justíssimo – e que ainda não deu seus primeiros passos.

Viajar sozinha, além de um ato de coragem, é um ato de encontro consigo mesma. É olhar para dentro e se entender melhor. É se permitir sem ser julgada. Ou é ser julgada e não ligar nem um pouco. E como isso é bom!

Não está pronta para ir sozinha ainda? Tudo bem. Vá com amigas, com parentes, com grupos, mas vá! Aos poucos, sua hora chega. E quando chegar, você vai amar. Eu sei disso!

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