Neste texto mostro um esquema que criei para refletir sobre certas tensões que senti ao dizer aos outros que viajei sozinha e também quando me percebi desejando essa experiência, pois quando imaginamos “viajar sozinhas”, alguns elementos que notei e apareceram como obstáculos, quase todos orbitavam em “ser mulher” e/ou “estar sozinha”.

Parto da ideia de que o desejo é uma força que cria, uma energia que constrói, motiva e fomenta planos e podemos aumentar nossa capacidade de realizá-los quanto mais nos sentirmos fortes para tal. E o medo, apesar de natural e consequência de algumas situações, algumas vezes se apresenta como um fator limitante, reforçando ou criando uma posição de fragilidade e diminuindo a capacidade de realização. Esses medos podem vir tanto de elementos internos (do nosso mundo interior) quanto externos (referente a acontecimentos), justificados por coisas cotidianas.

Algumas ideias bem comuns que circulam nas cabeças quando o papo é mulher viajante

“O Brasil (ou qualquer outro país) é machista, há altas taxas de violência contra a mulher, assédio e etc. Se eu for viajar vou estar em risco”. É verdade, você vai, mas não tão diferente como nas suas cidades já conhecidas. Corremos riscos quando cruzamos de ponta a outra nossa cidade, saímos à noite, usamos transporte público, bicicletas, vamos às festas, conversamos com desconhecidos. Se pensarmos bem, até um lugar nos “dar” segurança, ele era desconhecido e o espaço conhecido para mim é espaço desconhecido para outra viajante.

O que quero dizer com isso é que muito da ideia de “risco” implícita nesse pensamento afirma que viajando a sua chance de trombar com coisas ruins é maior do que brincar e perambular e de que na dúvida: não faça, não vá, mesmo que queira.

Óbvio, óbvio, óbvio que é diferente ser lida como mulher ou homem em diferentes lugares, mas nesse caso a prioridade das justificativas das violências, dados e estatísticas, serve muito mais para te impedir de passear por onde quiser, reforçando os limites de onde uma mulher deve estar, já que saindo para aonde quiser, a hora que quiser, estaria exposta, e uma vez, estando exposta, é culpada por qualquer coisa que aconteça.

Vamos lembrar que nós mulheres criamos estratégias unindo a informação local e medidas práticas que faríamos em qualquer situação: redobramos a atenção, às vezes evitamos alguns roteiros ou bairros, temos algo pronto para autodefesa, gritamos etc. Mas, principalmente, confiamos que vamos  garantir as condições de segurança que necessitamos para executar a viagem que queremos.



Outra coisa que vem à cabeça é : “Se precisar de dinheiro ou me machucar, não terei ninguém para me ajudar.”

 

Aqui o imprevisto e o acidente desviam a confiança na sua própria capacidade de resolução de problemas e descrevem a saúde e dinheiro como elementos poderosos de tensionamento, evidenciando “noias” que temos e construções desiguais entre homens e mulheres.

Pensado como isso se daria, imaginei algumas coisas. Quanto ao medo que vem da saúde/doença, estar fora da sua rede de referência tanto afetiva quanto espacial (de saber onde tem posto de saúde, acompanhamento, etc.) intensifica um certa sensação de despreparo, já que comumente como é uma tarefa que carrega uma super-responsabilização pela própria saúde ou saúde das pessoas próximas, dado com menor intensidade para homens – como carga mental extra que carregamos, então meio que esse medo acaba se sobressaindo e aparecendo como impedimento.

Quanto ao dinheiro, o que pensei foi a maneira como ele é usado para ser um fator de segurança em quase todos os campos da vida e que “ter medo de faltar na viagem” pode facilmente ser resolvido com algum planejamento e observação das necessidades que construímos ao longo de tempo diferenciando do que é realmente necessário com coisas que aparecem como necessárias, mas são mais artifícios que temos no cotidiano e consomem uma grana que no decorrer de uma viagem (dependendo dos moldes do qual ela pode se realizar), vai diminuindo.


Pode parecer uma utopia para algumas, mas é bem real que algumas coisas vão diminuindo em importância, enquanto outras que nem imaginamos vão crescendo em nós.  Inclusive, é muito comum histórias de profunda generosidade com viajantes, o que dá alívio e de certa forma amorosa nos diz: vai!

E, não precisamos entrar num campo “místico”, mas podemos imaginar qual rede você criará com pessoas presentes durante a viagem e que pode ser boa como a rede atual e permitir que você retire o medo de coisas que podem nem acontecer.



A última que sempre noto é:  “Eu preciso ter com quem conversar, senão não consigo”.

 

Nessa última questão quero evidenciar o apego emocional que condiciona a necessidade da presença constante de alguém conhecido, representado na condição de “ter com quem conversar”, “partilhar algum segredo ou momento”, “não conseguir viver sem/longe”, sendo um dos reflexos dessa necessidade latente, só se acalmando com a presença de outros.

Isso chega ao ponto de até invocar recordações para não estar sozinha. É uma espécie de dependência emocional que criamos e nutrimos, inclusive, sem a presença de qualquer outro indivíduo apenas dentro do nosso campo mental.

Solidão, velha amiga

Claro que a solidão é um estado que pode ser sentido de muitas maneiras e olhado por diferentes perspectivas, mas aqui quero propor um olhar mais carinhoso para solidão, ela que parece impedir mulheres capazes de viajar sozinhas, quando na verdade pode te ajudar a  experimentar um momento especial.

A antropóloga mexicana, Marcela Lagarde, define solidão: “A solidão pode definir-se como o tempo, o espaço, o estado onde não há outros que atuam como intermediários com nós mesmas. A solidão é um espaço necessário para exercer os direitos autônomos da pessoa e para ter experiências em que não participam de maneira direta com outras pessoas”.

Ela também explica que é muito comum, devido a nossa construção como mulher, carregar consigo um sentimento de desolação (perda irreparável) agindo em conjunto a um sentimento de esperança.  Na visão dela, a mulher mantém-se à espera de algo ou alguém que ocupe o lugar do deserto, do desabitado dentro dela, originada da nossa formação em sociedade para a dependência e controle, sinalizados através de incômodos na falta de companhia – até mesmo para coisas básicas –  desconfortável tensão entre o momento de estar com gente e sem elas.  Tamanho poder exercido desse processo é expresso até pela constante necessidade de recordação com outros, sendo poucos os momentos de relaxamento por estar realmente só (mental e fisicamente).

O que acontece é que ao correr para tentar suprir essa necessidade, numa esperança de socorro, um pedaço importante do processo de se aproximar da solidão é interrompido, uma vez que é nesse intervalo no qual aparecem as ausências e importâncias de cada uma, elementos da vida interior que podem ser conhecidos.

Aplicando isso numa viagem sozinha, você passará muitas e muitas vezes por este processo:

Chegar em um lugar novo, decidir quais passeios fazer, onde comer, novas músicas, fazer amigos – que provavelmente serão diferentes das pessoas que você já conhece, e assim ir produzindo a viagem a partir de vários elementos novos ao seu redor, faz você  ter contato e ir  atravessando diferentes sentimentos entre angústias e brilhos, para ir conhecendo sua própria forma de conhecer, sentir e viajar – através dessa amiga chamada solidão – e não desolação – o desespero constante de que algo foi perdido e está faltando. A solidão seria como uma noite mais fria que você esqueceu o casaco, mas consegue sair com seus amigos e se divertir, e a desolação seria como um frio enorme repentino que tudo que você que é ir para casa.

 Estratégias de construção da viagem solitária

Tudo isso acima pode ser intensificado ou suavizado pela maneira como se conduz a viagem, o que é ótimo, “porque se organizar direitinho todo mundo viaja sozinha e faz mil amigas no caminho”.  Depende se desde o início existe um planejamento ou se vai no improviso: ida, volta, hospedagem definida, passagem de um lugar pra outro já garantida, pacotes de turismo ou aventura de bicicleta, só ida e em aberto a volta, couchsurfing ou se trabalha para sustentar-se em viagem.

Entre o improviso e planejamento criam-se graus de familiaridade e segurança que podem responder a necessidade de cada uma e servindo como um bom ponto de partida para saber como gostaria de viajar, porque, pode acreditar, tem muita diferença de ir com tudo fixado ou ir se aventurando.

Outra coisa que pode contribuir para sua iniciativa é ter em mente o que almeja – de alma mesmo – da viagem, entre doses de contemplação e excitação, se o que se quer é uma vontade de sair da zona de conforto, mudar coisas em si mesmo ou descansar, olhar paisagens e pessoas mais de longe. Esses elementos podem direcionar melhor e ajudar na apreciação dessa experiência da solidão em viagem.

Há muita coisa ainda para ser desdobrada e espero contribuir na abertura dessa reflexão já que uma viagem começa antes da partida e termina bem depois de chegar em casa, pois cada aprendizado e aventura traz novos elementos na fabricação da mulher viajante, essa que é uma experiência aberta, em construção e faz de cada viagem um laboratório, um momento de experimentação de si mesma em contato com o mundo cheio de vida te esperando.


(Reforçando: Esse é um exercício de imaginação, não é para dar bobeira e moleza, tem que estar atenta, ser cuidadosa, apostar na sua intuição, escolher em quem confiar e se divertir.)

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