Dez horas da noite e ainda não caiu o dia

estou na rua admirando o vulcão Villa Rica

preparo meu corpo para a subida, tomo um café quentinho

ainda bem que tenho amores e cores excelentes

aperto a mão do parceiro aventureiro, gratidão pela companhia

 

saúde para irradiar luz na vibração da vida

“viver é mágico e inteiramente inexplicável”, disse Lispector

 e os anjos jogam vôlei na areia negra

 

Na manhã seguinte, vejo ao longe o meu vulcão escolhido

é o único ativo da América Latina. Portanto, é o mais arriscado

visto roupas impermeáveis cor laranja e mais uma jaqueta

sou uma astronauta marciana em terras chilenas

terras pedregosas, vulcânicas, negras, atrevidas

hoje sou a “Caminhante do Céu Espectral Vermelho”

o Kin 193 é vermelho como a força vital

Adiante! Pegadas fortes e firmes

 

Aho, Grande Espírito!

Aha, Pachamama!

saúdo os deuses e também as deusas (nobres, lindas, altivas!) esquecidas

estou subindo um vulcão sem saber o que esperar

uma alma entregue não tem medo da morte

quem sabe sua hora entende a diferença

entre um obstáculo e uma armadilha

não sou peregrina de asfalto, sou das terras íngremes, nada polidas

Imagem: Leticia Spier / acervo pessoal

 

Nos pés do vulcão há lagos esverdeados

claros da cor dos meus olhos cálidos

são os escalda pés do Absoluto, o Pai Andes

caminho e encontro um rosto esculpido numa rocha antiga

sinto cheiro de almas de índios, cheiro de sofrimento

almas com terras roubadas, almas vencidas

penso porque deixamos os fortes sem homenagem e os fracos orgulhosos

sangue e lágrimas se transformam em adubo na roda de Sansara, fico triste com isso

Imagem: Leticia Spier / acervo pessoal

 

Digo adeus aos pensamentos, preciso de foco para subir

tem desfiladeiro do lado direito, gelo liso do lado esquerdo

e três mil metros de subida

uma picareta, dois alemães, três israelitas, quatro chilenos

ninguém fala a minha língua

sou forasteira e nunca vi neve na vida

o frio é cortante, visto mais uma touca

tenho sede, fome, frio, mas eu tenho um condor no peito e não vou me dar por vencida

 

Subo dois mil metros e meio, acaba a parte de gelo

pedras enormes, pedras cortantes, fumaça de enxofre

acaba também a minha água, acaba a minha comida

começa a acabar as minhas forças, mas não quero ser a única a desistir

eu faço economia de energia, meu corpo está tão cansado

me sinto o gusano da montanha

não pronuncio palavra, nem sequer um suspiro

estou pendurada num pedaço de terra brava, deveras arredia

Imagem: Leticia Spier / acervo pessoal

 

O guia pede para vestirmos mais uma jaqueta

e a máscara de oxigênio, o gás vulcânico trazido pelo vento dificulta a subida

eu piso, cavo na picareta, piso, cavo, piso, cavo e piso

avisto o cume lá depois das pedras grandes, mais uns duzentos passos outra e outra vez e cheguei!

esqueço os alemães e israelitas que não entendem uma brasileira sensível

sento e choro como uma criança, um cachorrinho uivando

Pachamama, aqui te encontro!

sou pequena mas minha alma verdadeiramente levita

Imagem: Leticia Spier / acervo pessoal

Saussure filosofou profundamente no Mont Blanc

nos Himalaias os budistas silenciam

Machu Picchu está aqui no Sul para mostrar que esse desejo é global e instintivo

entendo e respeito esse ponto da consciência

porque é no alto que a alma se reflete translúcida

ela canta, faz uma dança feliz, se reconhece nas alturas, nos ecos eternos do tempo

somos feitos de pó de estrelas e ao morrermos, a poeira sobe

encontro da vida e morte, o amor e sorte é distração no intervalo do existir

Imagem: Leticia Spier / acervo pessoal

 

Não há vida no cume de um vulcão

planta, animal, nem sequer uma folha, tudo morto e queimado

ou pelo vulcão, ou pelo gelo

depois da comoção e do deslumbre é hora de descer

a descida foi alegre e divertida

descemos ligeiro com um simples ski bunda

entro no carro exausta, quietinha reflito

a terra de Púcon é negra e fértil, um mar de rosas coloridas

a morte é a porta da abundância liberada para a grandiosidade da vida

 

Às dez horas da noite e ainda é dia

o vulcão Villa Rica ficou dourado

lindamente salpicado de raios solares

um moço toca violino e minha alma canta a mesma canção

ainda bem que tenho ar nos meus pulmões

saúde para irradiar luz na vibração da vida

“viver é mágico e inteiramente inexplicável”, lembrei novamente da Lispector

e os anjos, distraídos, voltam para jogar vôlei na areia negra

 

Pucón, Chile. Janeiro, 2018.

 

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