Mascarada com falsos sorrisos e tendo dentro de mim todo o peso do mundo: foi exatamente assim que decidi ir para o Capão, região da Chapada Diamantina que atrai trilheiros do mundo inteiro!

Minha semana estava extremamente atribulada, pesada e estava realmente deixando de enxergar tudo e todos com o brilho que costumava enxergar. A rotina estava se tornando um caos.

Minha mente precisava de um tempo, de uma reconexão. Acordei na sexta-feira pela manhã determinada a me refugiar, dentro de mim, tendo como plano de fundo aquilo que me reconecta com a minha real essência: a natureza.

E parece que quando precisamos de algo e realmente o desejamos de fato, tudo conspira para que isso aconteça. E com o Capão não foi diferente.

Consegui sair mais cedo do trabalho na sexta, há tempo de eu fazer minha mochila, comprar minha passagem e ficar com uma amiga-irmã até o último minuto antes do embarque. Peguei o ônibus das 23h, no Terminal Rodoviário de Salvador, e só cheguei ao destino pela manhã.

Peguei o celular para olhar a referência de algum hostel e, pasmem: sem sinal. Sim, existem lugares em que ainda não há sinal de celular. E como isso é fantástico!

Fiquei no Capão por dois dias. Cheguei no sábado pela manhã e estava em Salvador às 07h da segunda-feira. Nesses dois dias, conheci lugares incríveis, a exemplo da Cachoeira da Fumaça (12 km, ida e volta) e de Riachinho.

Aproveitei o melhor da culinária que a cidade poderia me oferecer, desde os famosos salgados com recheio de jaca (pastel, coxinha, dentre outras opções para vegetarianos/veganos), até um bom vinho acompanhado de uma pizza autêntica e original da pizzaria mais famosa da região, a Pizzaria da Chapada.

Apesar de tudo isso ter sido maravilhoso, não foram apenas os lugares que estive que fez com que a minha experiência reconectiva fosse um sucesso. O segredo estava nas pessoas que esbarrei pelo caminho e que tornaram a minha experiência única.

Tive o privilégio de conhecer Cláudia, uma mulher que também estava viajando sozinha, e de ter sido guiada na trilha da “Cachoeira da Fumaça” também por uma mulher, Jô. Três mulheres, com experiências, idades e visões distintas, que se encontraram por um acaso e que com certeza trouxeram uma lição uma para outra.

Sim, meninas: apesar de viajarmos sozinhas, a jornada nunca é solitária

Estar com pessoas fora do seu ciclo convencional faz com que você se lance na vida como uma narradora onisciente, inclusive da sua história pessoal. Às vezes, deixar o em “si” nos faz ver a grande escola que o mundo realmente é. E nessa escola, nada melhor do que aprender interagindo com outras pessoas e experienciando outros ambientes.  E a melhor oportunidade para isso é viajar, ainda que sozinha.

Jô (à esquerda), eu (centro), Cláudia (à direita). Vale do Capão, 2017.

O medo, no entanto, existe. Ser mulher já nos coloca na condição de “sempre alerta” e também na posição de não confiar em ninguém, já que o agressor não tem um perfil certo. Entretanto, esse sentimento existe, seja numa cidade desconhecida, seja na nossa própria cidade… Afinal, qual mulher nunca sentiu medo à noite, voltando sozinha para casa, ao ponto de mudar de calçada na rua ao avistar algum homem vindo em sua direção?

A melhor forma de lidar com o medo de sermos nós mesmos, nesse mundo tão hostil, é não temê-lo e descobrir quem realmente somos. Isso inclui o olhar para dentro na busca de descobrir nossos pontos fortes e fracos.

Vale do Capão, 2017.

Curvar-se ao modelo do “medo” é a pior forma de aceitação do sexismo cruel que assola a nossa sociedade, aceitando o modelo “macho” (opressor) e “fêmea” (oprimida). Só temos na vida, uma condição – a humana – e nessa, o imperativo é ser feliz, viajando muito, de preferência.

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