Estou no Canadá há três meses, contados muito bem contadinhos. O tempo aqui tem hora que passa super rápido, mas tem hora que parece estacionar. Estamos saindo do verão e o sol há pouco se punha às 21h30. Agora até que escurece às 19h30, mas antes, imagina só a quantidade de coisas que se pode fazer num dia que “termina” quase às 22h. O dia rende.

Morar no Canadá: um pouco sobre meu processo de transição

Decidi sair do Brasil por uma questão pessoal. Trabalhava em uma grande empresa (13 anos de labuta) e estava muito infeliz, muito estressada. Estava me transformando em uma pessoa bélica, pesada. Não queria isso para mim, não mais.

Procurando um país para chamar de lar

Minha transição começou mais ou menos seis meses antes de o avião decolar. Primeiro, achei o país onde queria mudar. Essa, na verdade, foi uma das decisões mais difíceis, apesar de meu objetivo já ter sido pensado anos antes.

Eu queria porque queria morar em algum país que não falasse minha língua e em que eu pudesse praticar 24 horas por dia e 7 dias por semana o desconforto de só ouvir uma língua estrangeira.

Como eu falo inglês e francês, o único lugar do mundo (não sei se é o único mesmo, mas o mais acessível) em que se tem as duas línguas como oficiais é o Canadá. Após deambular pelo mapa-múndi, tomei minha decisão.

Procurando emprego

Depois de achar o país, a questão toda era: o que fazer no meu novo porto? Estudar? Trabalhar? Comecei procurando emprego, mas, sinceramente, como diplomada em Letras, sem muita experiência no currículo, achar um emprego em outro país é meio complicado.

Me inscrevi em sites de emprego, enviei currículos, até consegui fazer uma entrevista por Skype, mas não deu muito certo. Resolvi, então, por questões pessoais também, me inscrever em um curso técnico que complementasse minha formação no Brasil. E já estou frequentando minhas aulas.

Meu dia a dia de morando no Canadá

Imagem: Natasha de Pina / acervo pessoal

A vida aqui tem sido ao mesmo tempo muito parecida com a que tinha no Brasil e ao mesmo tempo muito peculiar. Em termos de língua, meu dia é alternado o tempo inteiro entre o francês e o inglês (como tenho muitos amigos brasileiros, não consegui abandonar por completo o português ainda, não).

Montreal é surrealmente bilíngue. Code switching é algo corriqueiro: vou à padaria e me atendem em inglês. Vou ao trabalho, a língua falada é francês. Dependendo do canto da cidade que for, recebem-me com “Good Morning” ou com “Bonjour”.

A dificuldade que tenho hoje é “acertar” a língua que será falada. Já me peguei várias vezes iniciando uma conversa em inglês e terminando em francês. Ou o contrário. Mas, existem pessoas aqui que só falam inglês e vivem muito bem. Falar as duas línguas facilita a vida enormemente. Além de ser mais divertido.

Montreal tem muita coisa para se fazer na rua; como no Rio de Janeiro . É uma cidade que incentiva seus habitantes a saírem de casa. São vários festivais o tempo inteiro acontecendo. São shows que acontecem aos montes. Claro, estamos falando do verão, né, em que acontece, fácil, de a temperatura chegar aos 40 graus. Porém, já me disseram que no inverno, em que os termômetros marcam às vezes -40º, também há muita coisa para se fazer à l’exterieur.

Lidando com a saudade

Impressiono as pessoas quando digo que meus melhores amigos no Rio de Janeiro demoraram muito a conhecer minha casa. Eu não os chamava para lá. Saía com eles, sim, sempre, mas estávamos sempre na rua, sempre em bares, nunca em casa.

Aqui está sendo a mesma coisa. Tenho saído, estou sempre fora. Não fico em casa. Com tanta coisa a ser vivida, por que ficar em um lugar fechado? De novo, acho que esse meu discurso pode mudar no inverno, mas, por enquanto, a vida está sendo facinha aqui.

O que tem sido difícil de administrar morando fora são as relações pessoais com as pessoas que ficaram no Brasil. Crushs, amigos, família, todos estamos tendo que adaptar o modus operandi de se relacionar.

Parece bobo, parece simples, mas segurar um relacionamento através da tela de um computador ou da tela do celular não é para qualquer um não. A interpretação dos fatos é livre, o timing das suas urgências é diferente, suas prioridades já não casam mais com as dos outros, mesmo que vocês sejam amigos de séculos.

Tornar racional as relações e os sentimentos têm me ajudado a contornar da melhor maneira possível a não-comunicação. Ligações de vídeo e áudios de whatsapp salvam a vida. Dia desses passei duas horas com uma amiga trocando áudio. Melhor coisa. Nos entendemos, ficamos de bem e voltamos a nos amar.

Com outra, foram 3 horas de ligação de vídeo: o suficiente para colocar parte das conversas em dia. Li recentemente que uma menina morando longe da amiga fez uma apresentação de power point para contar os episódios mais importantes de sua vida para a outra. Também não descarto essa ideia, pois tudo vale para que as relações sejam preservadas.

Comunidade de brasileira: um apoio para lidar com a saudade de casa

O que tem me impressionado aqui é a força que a comunidade brasileira tem. Acredito que isso seja algo inerente a qualquer nacionalidade, mas não achei que nós brasileiros fôssemos assim, não.

Existem grupos de apoio a brasileiros em Montreal no facebook mas, ao vivo, quando se encontram na rua e se reconhecem como brasileiros, são super receptivos e amigos. É incrível como nós nos procuramos e como sempre tem um brasileiro novo sendo adotado por um grupo de brasileiros.

Esse final de semana fui a um festival de pastel e coxinha. Mesmo não sentindo tanta falta assim da comida brasileira, tinha que checar o evento, óbvio. Incrível a quantidade de brasileiros que lá estavam. Famílias e mais famílias, criancinhas pequenas, de colo, velhos, muita gente mesmo. Esperava uma galera, mas não aquela quantidade. A comunidade brasileira aqui é enorme.

Apesar de muitos amigos brasileiros, os parceiros nativos ainda são mais raros. Aqui é um pouco difícil entrar na comunidade québécois. Não que não sejam um povo super simpático. Muito pelo contrário: são educados, sorridentes, gentis. Demora, no entanto, conseguir um convite de jantar. Estou ainda aguardando o meu.

Conselhos úteis para morar no exterior

Uma coisa que não me falaram sobre esse negócio de mudar de país é a quantidade de despesas não programadas que se tem. Como falei antes, estou aqui há 3 meses e por mais que já tenha meu orçamento bem desenhado há tempos, não consegui ainda o cumprir.

Há sempre algo não previsto que acontece. Sempre. Achei que isso fosse acontecer no primeiro mês somente, mas não, acontece depois também. E, aí, é isso: é ficar esperto e considerar bem antes de se mudar que o começo vai ser bem mais caro do que sua vida planejada poderia ser. Indo para o meu quarto mês já prevejo a calmaria, mas até que ela chegue, estou alerta.

É como aquilo que o poeta dizia: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. É bem isso: para se aproveitar a oportunidade de mudança de país tem que, no entanto, estar de coração aberto, de braços abertos, para o diferente.

Não adianta cruzar terras, rodar quilômetros se o pensamento só aceitar o jeito brasileiro de existir. Tenho visto muito isso aqui: muita gente que veio para cá, mas que critica o tempo inteiro o jeito de ser das coisas. Esse é um dos posicionamentos menos inteligentes que se pode ter.

Antes de eu vir para o Canadá, uma amiga minha que se mudara do Rio de Janeiro para Joinville, me disse: “A parte mais difícil da mudança é a psicológica. Mudar efetivamente é fácil”.

Tenho visto como essa frase é verdadeira. Fazer é simples. O lance todo é se programar bem e sair certo do que se quer. Quando o momento chegar, tudo vai fluir. Pedrinhas aparecerão no caminho, mas serão administradas. Confia no seu próprio taco que dá tudo certo no final!

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