Madrid amanheceu chuvosa e com sete graus de temperatura. Eu estava ali com o grupo do curso de espanhol. A viagem havia começado em Lisboa. A ideia era desbravar a capital da Espanha e treinar o idioma. O ano era 2001, o mês, fevereiro.

A cidade é linda. Estávamos em um hostel próximo à Puerta del Sol e percorremos a Gran Via, Plaza Mayor, os mercados. Visitei, maravilhada e o Museo del Prado (enquanto alguns optaram por fazer compras).  Passamos dias incríveis apesar do tempo cinzento. Porém, havia um lugar que não estava no roteiro, mas não saía da minha cabeça: Barcelona . Na verdade, havia outros também.

Para alguém que pela primeira vez havia cruzado o Atlântico, olhar um mapa da Europa (ou, nesse caso, da península ibérica) e suas redes de trem era um convite tentador. Confesso que havia um certo grau “premeditado” nas minhas considerações, pois eu havia lido algumas revistas de viagem sobre cidades espanholas, escutado referências de amigos e meus pais, que haviam percorrido a Europa em 1989-90.

“E se pego um trem e vou até ali?”, me questionava. “Mas, sozinha?! E sem falar espanhol (castellano) 100%?!”.

 

Em meio aos questionamentos, o quarto dia de chuva decidiu por mim. Dizem que as geminianas são um pouco impulsivas e talvez tenha sido isso. O que sei é que em poucos minutos fiz a mala, dei um beijo no pessoal e parti para a estação de trem. Ainda lembro de descer as escadas do metrô Puerta del Sol com uma mala daqueles modelos anos 80/90, com alça curta, rodinhas cambaleantes e muito maior do que as que eu levo hoje. Fui.

Comprei a passagem para algumas horas depois para ter tempo de dar uma olhada online em hostels, no serviço de internet da estação. Minhas queridas, 2001 eu não tinha celular com Google não! Tempos difíceis… rs.

A viagem durou a noite toda, mas que trem parador! Pensar que hoje em dia o AVE faz o mesmo em 2h e 40m (viva a modernidade!). Lembro com clareza o momento em que saí do metrô (com minha “mala com alça”), em plena Rambla. O sol brilhava, o clima estava super agradável e não pude resistir. “Señor, me pode tirar una foto?” perguntei num portuñol danado. E descobri que ali falavam catalão.

Sim, ali estava eu, euzinha, pela primeira vez viajando sozinha

Percorri todo o núcleo turístico, provei tapas, cervejas, tirei tantas fotos que o dono da loja de revelação no Rio viraria meu fã. Conheci as obras de Gaudí, a “ruta del modernismo”, as instalações das Olimpíadas 1992; me encantei com a cidade!

E ainda teve mais!

Granada, Sierra Nevada-Alhambra, Sevilla, Santiago de Compostela. Uma viagem inesquecível. Como meu voo de volta para o Brasil saía de Portugal, fui parando e curtindo. Lisboa, Sintra, Porto.

Venci a hesitação. Me joguei! Claro, sempre tomando os cuidados necessários para que a viagem deixasse apenas boas lembranças, como de fato deixou. Depois disso, desbravar o mundo sozinha deixou de ser um segredo, virou costume… rsrs.

Muita gente me fala que adoraria fazer o mesmo, mas por vezes falta coragem. É claro que não é totalmente fácil. Quando estava no trem tive receio de como ia ser. Eu sem conhecer ninguém lá, também senti falta de compartilhar alguns dos momentos. 

Só que a recompensa é tão maior. Descobri que vale muito a pena! Adoro encontrar amigos nas minhas viagens, claro, mas o fato de ter a autonomia de poder escolher ir sozinha mesmo, sem depender de outros fatores, é incrível.

Se você tem vontade de viajar mas falta companhia, ou mesmo se tem curiosidade de saber como é isso de “viajar sozinha“, experimente! Você pode começar com uma escapada perto da sua cidade, por exemplo, para depois se aventurar a ir mais longe. Passo a passo. Se permita, vá e “enjoy the journey!”.

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