Tracks é um filme produzido em 2013 sob direção de Jonh Curran e protagonizado por Mia Wasikowska, a mesma atriz de “Alice no País das Maravilhas”. O longa é a adaptação do livro “Tracks: A Woman’s Solo Trek Across 1700 Miles of Australian Outback de Robyn Davidson” (não traduzido para o português) e conta a história profunda de uma caminhante. Antes de continuar com o artigo, devo  alertar que há diversos spoilers.

Basicamente, tudo começa com a chegada de Robyn, a protagonista, a Alice Springs, na Austrália. Ela chega com sua cachorra e companheira de viagem, Diggity, para procurar um hotel onde possa trabalhar em troca de hospedagem e um pouco de dinheiro para seguir seu trajeto. Uma situação comum a muitas viajantes que combinam andanças e autosustento.

O desejo dela é um só: atravessar o deserto

Ela queria chegar até o Oceano Índico com camelos, uma trajetória de 2700 quilômetros de caminhada e que vai apresentando sua interioridade mesclada às profundas paisagens de areia.

Contudo, Robyn ainda não tinha os camelos. Por isso, na região de Alice Springs, ela acaba trabalhando em dois ranchos até consegui-los. Na primeira fazenda, de um alemão chamado Kurt,  firma o acordo de oito meses de trabalho gratuito para então receber dois camelos e depois seguir viagem.

Porém, o homem constantemente desacredita de seus planos e a maltrata. No fim, acaba por dar-lhe o calote. Passado um tempo, outro treinador de camelos, um afegão, vendo sua experiência com Kurt, a convida para trabalhar na fazenda em troca de fornecer os camelos que necessita para a viagem. Felizmente, ele cumpre o combinado e nesse período também se tornam amigos.

Com os camelos garantidos, antes de partir, Robyn recebe a visita de algumas amigas que desejam abraçá-la antes do início da sua caminhada; mesmo percebendo o gesto de carinho, a vontade dela é de solidão. Há também outra figura importante que apareceu ao acaso na vida de Robyn: Rick Smolan.

Eles se conheceram quando ele a viu trabalhando no hotel que estava hospedado. Ele tentava fotografá-la limpando janelas, mas ela se enfurecia  questionando se “ele era mais um turista americano que veio explorar os aborígenes”.

Depois ele descobre que aquela moça tem planos de atravessar o deserto e fica muito interessado. Fotógrafo estadunidense para a revista Time, de fato, tinha ido a Alice Spring registrar histórias e rituais dos aborígenes.

Entretanto, depois de conhecer os planos da garota, propõe tirar fotos dela ao longo da viagem para uma revista. Robyn nega e diz que não quer publicidade em sua viagem, mas com muita conversa conseguem um acordo de algumas fotos durante cinco momentos da viagem em troca do dinheiro que ela precisava.

Ainda que houvessem tensões entre eles, Rick foi um aliado nessa travessia

Crédito: Matt Nettheim/Courtesy of SeeSaw Films

A trajetória dela alcança uma proporção inesperada da mídia, conhecida como “Lady Camel”, e turistas começam a persegui-la e abordá-la. Ao longo do percurso ela parou em vilarejos aborígenes, e descreve-os como profundamente humanos e ligados à natureza com sensibilidade extraordinária. O contato foi transformador e sentido com muita profundidade. A caminhante ainda notou as desigualdades a que aquela população era submetida.

Durante uma das idas do fotógrafo, em que ele se aloja com ela em uma das vilas, ocorre um episódio desagradável. Rick fotografa-os durante um ritual desrespeitando os acordo com o grupo. Robyn, que além de ficar particularmente ofendida pela postura dele, se prejudica, pois perde a confiança daquele povoado.

Precisou de um tempo até que esses laços de amizade fossem reatados e pouco mais pra frente, Eddie, um nativo já idoso, topa fazer um pedaço da travessia com ela. Os dois não falavam a mesma língua, então, se comunicavam por gestos, silêncios e intuição. Através dessa convivência pôde ocorrer uma amizade, além de conhecer com maior profundidade os caminhos do deserto e da sobrevivência.

A pergunta que retornava a ela a  todo momento é:

“Por que você quer fazer isso?”, e a resposta era simples: “Por que não?”

As motivações para a viagem remetem diretamente a suas lembranças, e a história de Robyn é apresentada em fragmentos mostrando-a desde menina e contando a origem de certa melancolia.

As paisagens do seu mundo interior vão sendo desenhadas em par, com o deserto, e as longas cenas fazem ressoar no espectador a lentidão da caminhada com a convicção de seguir.

Em meio a areia abundante, pondo à prova o que tem de mais sólido no humano e o que permanece quando se encontra a beira dos próprios limites, no limite de uma paisagem e de uma travessia.

A beleza do filme capta a lapidação que uma viagem pode proporcionar, fazendo emergir o sentido profundo de uma caminhante – sem precisar de grandes falas e nem imensas exposições psicológicas da protagonista – o silêncio produzido nos vãos da bonita fotografia e dos poucos diálogos oferece um pouco da consistente sabedoria que um desafio como esse pode proporcionar.

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