Em 2008, eu fiz minha primeira viagem sozinha. Escolhi ir para o exterior. Queria desbravar o mundo, sentia-me forte, empoderada e dona de tudo. Mas morria de medo. Morria de medo do desconhecido, morria de medo das pessoas. E se fizessem algo comigo? E se uma tragédia acontecesse? E se o avião caísse?  Não sei se vocês lembram, mas houve um ano aí que o que mais acontecia era queda de avião. Elegi por conta própria a companhia aérea mais perigosa, decidi nunca voar com ela e cá estou, vivona, pimpona.

 Na minha primeira viagem sozinha, escolhi como primeiro destino Cuba, a majestosa Cuba. A terra de Fidel me intrigava. História forte, de conquistas, de rebeldia, de vontade de fazer diferente, do desejo de fazer melhor. Não vou entrar no mérito do regime, porque não cabe aqui. Mas o fato é que escolhi Cuba porque era um destino pouco óbvio para uma mulher viajar sozinha.

À época já tínhamos internet. Era o início do Facebook e a gente ainda nem entendia direito como funcionava. As fanpages eram pouquíssimas. Já existiam sites de viagem, mas esses também eram raros. Raros e os pacotes caríssimos. Lembro que comecei pesquisando através de agências de viagem. Foi a primeira coisa que pensei: estou indo sozinha, preciso que tomem conta de mim. Oi? Nope. Eu tomo conta de mim.

Acabei achando, meio que por acaso, uma menina da minha universidade, que tinha feito a volta na ilha com o namorado. Mandei mensagem pelo Face, mandei e-mail. Falei que estava indo sozinha. Ela falou que ia me dar as dicas e sumiu. Nunca mais deu notícias. Cheguei a insistir ainda, mas desisti depois de perceber que ela não estava a fim.

Voltei para as agências de viagem e acabei achando uma cuja agente era mulher (uhul!) e já tinha ido a Cuba nada mais nada menos que 14 vezes. “Essa daí sabe o que fala!”, pensei. Trocamos e-mails e mais e-mails. Ela me deu dicas do tipo “leve chocolate em sua bolsa. Quando andar pelas ruas, crianças irão te abordar. É só dar chocolate para elas. Só cuidado para não avançarem demais.” Oi? Ok.

Quilômetros e mais quilômetros de papel (ah, sim, papel, porque eu não encontrava informações direito na internet. Então, as dicas que ela me dava eram ouro. Já existiam guias impressos, mas como eram caros! Na xerox da UERJ eu conseguia imprimir as partes que fossem me servir a R$ 0,13.

Sozinha na Ilha de Fidel

Levei umas duas semanas de planejamento. Fiquei 08 dias lá. Meu voo, depois de tudo pronto, foi cancelado. A viagem foi adiada 2 dias.   Cheguei em Havana às 3:30 da madrugada. Meu voo não havia atrasado, mas a companhia de turismo brasileira informou o horário errado para o moço do transfer.  Fiquei amargando umas boas horas no aeroporto, tentando achar alguém que pudesse fazer uma ligação para me levarem ao hotel. Especialmente aquela noite, as pessoas estavam bem tensas.

Lembrando que Havana, naquela período, era muito parecida com Rio de Janeiro dos anos 80. As pessoas fumavam em local fechado, existiam coisas velhas tipo orelhão com foto de mulher pelada, caras com barrigão e camisa aberta… Fora os carros velhíssimos que faziam com que pensasse que havia voltado no tempo (mas essa parte era legal). E eu só tinha 24 anos. Não tinha experiência nenhuma. E não falava espanhol, mas era especialista no portunhol.

No final das contas, consegui chegar (rezei muitooooo) ao hotel. Todos me tratavam muito bem. Nos dias que lá passei, as pessoas eram solícitas, os homens eram interesseiros. Durante o tempo que lá estive, tomei o cuidado de não passar por ruas estranhas sozinha, não tomar bebidas abertas (drinks, mojitos, etc), só bebidas fechadas: TuCola, rum em caixinha de leite, café em padarias. Conheci um iraniano, Bob, que fizera parte da Revolução do Xá no Irã, fugira e pedira asilo político aos EUA. Depois de lá se estabelecer, acabou adaptando seu nome, Babak, para Bob. Com certeza ficou mais fácil de lá socializar.

Bob virou meu fiel companheiro. Fizemos muitos passeios juntos. Conhecemos outras pessoas. Não me esqueço de duas alemãs que conheci também em Havana. Fiquei impressionada porque elas, mulheres, também estavam lá. Elas me deram força, animaram-me a e fizeram-me ver quantas de nós estamos por aí, seguindo nossos caminhos.

Viajar hoje sozinha não é menos difícil. Ok, temos mais facilidade em conseguir informações, temos mais apoio de nós mesmas, mas sempre haverá percalços, sempre haverá momentos que podem fazer com que pensemos: “é isso mesmo? E se der errado?”

Eu tive um segundo de loucura quando pensei que não deveria ir sozinha para um país desconhecido; pensei que não deveria ir sem meu então noivo. Isso aconteceu quando meu voo foi cancelado do nada. E chegou a acontecer de novo quando eu me vi sozinha no aeroporto às 3h da manhã. Mas no final deu tudo certo. Ainda bem que não ouvi o diabidinho que estava dentro de mim.

Porque o lance é esse: diabinhos aparecerão. Mas não dê ouvidos a eles. Não pare. Não deixe de ir. Se é isso que você quer, vai. Segue o seu caminho. A experiência que você vai ter vai superar todas picuinhas,  todos os mimimis, todas as energias ruins. Tudo vai ser recompensador e você irá voltar uma pessoa melhor.

Depois de Cuba, fui para a França, Bélgica, Uruguai, Portugal e outros lugares sozinha. Só eu e eu mesma. E sabe de uma coisa? Mal posso esperar pelo próximo destino.

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