A antiga ideia de que ter uma casa, uma família convencional e um emprego fixo são sinônimos de felicidade não se encaixa para todas. Para algumas mulheres, a liberdade de conhecer novos lugares, pessoas e ter novas vivências são motivações de vida. Ainda bem! Já que por meio dessas mulheres histórias incríveis chegam até nós. Como é o caso da escritora e artista Fhaêsa Níelsen, de 25 anos, e da ativista e artesã de rua Gabriela Paes, de 22 anos.

As duas estão desde junho deste ano na estrada com sua velha companheira Lupe, uma Kombi Clipper 1996, que foi toda reformada para a trip. Durante o período na estrada, as duas já passaram por Nova Serrana, São João Del-Rei, Juiz de Fora, Volta Redonda e Paraty.

O destino final? Bom, no momento as minas estão em direção ao Uruguai com previsão de chegada em dezembro. Se esse será realmente o destino final, só o tempo vai dizer. “Nossa intenção é, inicialmente, morarmos no Uruguai  mas, lá, tudo pode mudar e a gente pode decidir continuar pela América do Sul por mais alguns meses ou, quem sabe, anos, risos”.

A trip das duas é a moda alternativa. Com elas não há muitas questões determinadas como orçamento fixo, lugar certo para dormir. Tudo acontece no “deixa a vida me levar”. No entanto, Gabriela não deixa de comentar que possui instruções básicas de sobrevivência anotada em um caderninho. Se tudo der errado, as duas contam com informações para, por exemplo, acender uma fogueira e conseguir se alimentar apenas com alimentos básicos.

“Essa é a nossa primeira grande viagem e tem sido um grande aprendizado diário. Todas as nossas energias, crenças, credos, medos e apelos estão concentrados no agora. É como se estivéssemos aprendendo a andar com mais atenção do que nunca”, enfatizam.

Em cada cidade que param a primeira coisa que fazem é montar em suas bikes e pedalar para conhecer mais a região. Quando chega à noite as duas contam com hospedagens nas casas de pessoas que conhecem por meio das plataformas Couchsurfing e Workaway. O orçamento é conquistado com trabalho artesanal. “Nós trabalhamos fazendo cadernos artesanais com peças em madeira. Sempre que paramos em uma cidade nós saímos pra vender nas ruas e fazemos uma divulgação virtual também. Quando possível, fazemos comidas veganas”, explicam.

Obviamente, Fhaêsa e Gabriela passam por alguns perrengues na viagem. Certa vez, a Kombi parou de funcionar quando elas iriam ministrar uma oficina de fanzine para mulheres em Juiz de Fora. “Foi muito triste! Todas as meninas que estavam nos esperando para a oficina entraram na loucura de procurar algum mecânico que atendesse após às 18:00. Por fim, encontramos uma oficina que atendesse e descobrimos que iríamos precisar trocar a bobina de ignição e que só daria pra trocar no outro dia. Resultado: oficina cancelada porque já havíamos estourado o horário e uma kombi dormindo na rua. Mas, de qualquer forma, foi maravilhoso ver a movimentação e a compreensão de tantas mulheres unidas e animadas tanto com a nossa história quanto pra fazerem suas próprias histórias”.

Apesar dos perrengues, que fazem parte da vida, as meninas também somam à viagem uma grande bagagem de vivências positivas. Uma dessas está relacionado a uma incrível descoberta. Elas comentam que estão presenciando menos preconceito na estrada do que quando tinham moradia fixa.

“Existe um imaginário coletivo muito forte que diz que lugar de mulher é em casa. Somos criadas para ter (ainda mais) medo de tudo e para acreditar que sempre estaremos sozinhas se não estivermos na companhia de uma figura masculina, seja ele um pai, amigo ou companheiro. Afinal, se mesmo estando em duas, ainda estamos “sozinhas”, quando é que estaremos “acompanhadas”? Felizmente, as pessoas que temos encontrado pelo caminho costumam estar dispostas a escutar nossas considerações e a sempre conversar sobre os seus próprios medos, desejos, etc”.

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