Estamos sempre em confronto com os nossos preconceitos. Com tanta informação disponível, hoje temos uma ideia melhor do que é preconceito, de como ele afeta as pessoas e como muitas vezes está disfarçado em piadinhas. Mas, sabemos que elas não têm a menor graça. Ainda bem!

Nós, mulheres, sentimos na pele o quanto ainda precisamos avançar para acabar com os preconceitos que sofremos. Sempre falamos por aqui sobre nossas experiências e aprendizados. Como viajante, também aprendemos a treinar melhor o nosso olhar. Ao conhecer tanta gente, de culturas e condições diferentes, vamos aprendendo a domar o impulso de fazer suposições sobre as pessoas. Mas fazendo uma autoanálise sincera, será que estamos mesmo livres dos nossos preconceitos?

Talvez não, mas sempre podemos mudar

Eu, mesmo fazendo um esforço para não ter ideias precipitadas sobre uma pessoa, muitas vezes me vejo afundada nos meus julgamentos. Alguns episódios em minhas primeiras viagens me marcaram. Por exemplo, ao ver aquela loirinha americana bonitinha chegando ao hostel, sem perceber, fiz uma ideia de alguém fútil. Mas, com alguns segundos de conversa, descobri que a menina é ativista vegana, defensora dos animais, faz trabalho voluntário e está sozinha viajando pela América do Sul com apenas 21 anos.

Uma mulher admirável que meus olhos contaminados não queriam me deixar ver. E, que mal teria ela ser apenas uma menina de 21 anos querendo se divertir em uma viagem? Outra vez, quando vi um  gringo bonitinho com uma latina e, mesmo eu sendo latina, já pensei que ela “se deu bem”. Depois, descobri que eles se conheceram na Alemanha, enquanto ela fazia mestrado. Ela estava mostrando o país dela pela primeira vez; tão orgulhosa da sua terra na mesma proporção em que eu estava envergonhada da minha visão. Quem se deu bem foi ele de ter a oportunidade de conhecer outra cultura através de uma pessoa tão interessante.

Precisamos estar em constante desconstrução

Alguns anos depois, pensando já ter superado estes prejulgamentos, estava em uma ilha caribenha com pouca estrutura e fiquei sabendo de uma festa que iriam improvisar por ali. Festa + turistas + Caribe = Urru! Chegando na festa, ao invés dos turistas que eu estava esperando, só havia locais. Torci o nariz, fingindo uma inicial simpatia, mas fui tão bem tratada que logo já estava entre eles dançando, conversando e vivendo as melhores histórias. Urru! Hoje já sou eu que busco essa interação com os locais.

Claro que essas histórias estão no passado e as conto envergonhada, mas levo-as como aprendizado para sempre (sempre, sempre) abrir meus olhos, ouvidos e meu coração para as pessoas. Às vezes ainda me vejo julgando ou me prendendo ao que ouvi do outro. É um esforço constante que faço para não cair nessa armadilha.  Reconhecer que ainda tenho preconceitos tem sido meu modo de acabar com eles. Nós, viajantes, temos uma oportunidade muito rica (e também uma obrigação) de vivenciar outras culturas, conhecer outros costumes e, com isso, aprender que as pessoas vão além do que os nossos olhos podem ver.

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