Eu comecei aos pouquinhos a entender como ficar sozinha

Mesmo odiando, aprendi a almoçar sozinha nos restaurantes do centro do Rio, pois durante um período a minha grade da faculdade não batia com a dos meus amigos e eu acabei sem eles por perto alguns dias da semana. Foi terrível no início, mas eu logo descobri que, ao contrário do que eu pensava, ninguém me lançava olhares de piedade por estar comendo só. Na verdade, muitos outros faziam exatamente o mesmo que eu nas mesas ao redor.

Um belo dia eu fui ao cinema sozinha. Enquanto a galera que eu iria encontrar mais tarde estava toda na aula de uma matéria na qual eu  não estava matriculada, fui assistir a um filme no meio de uma tarde de quinta-feira. Rodeada por uma meia duzia de aposentados e adolescentes vestindo uniformes, eu assisti a um filme e comi a minha pipoca sem mais ninguém.

Teve também a vez em que eu fui a um show sozinha. Como o meu gosto musical sempre foi considerado um tanto peculiar pelos que me rodeavam, não foi nenhuma surpresa quando uma das minhas bandas favoritas anunciou um show na minha cidade e ninguém se voluntariou para ir comigo.

Depois de perder muitos eventos similares por falta de companhia, eu decidi ir desacompanhada mesmo. E ainda que no início tenha me sentido um pouco deslocada, assim que as luzes se apagaram e a banda entrou no palco eu tive certeza que ali era exatamente onde eu devia estar.

Eu quase fiz uma viagem sozinha uma vez, mas ao ouvir meus planos de viagem, uma amiga do trabalho resolveu se juntar a mim aos 45 do segundo tempo e fomos juntas passar uma semana em Londres . Não que eu tenha ressentimentos por isso.

Saber que eu, que nunca tinha viajado sozinha, teria alguém comigo, foi um alívio e passamos dias ótimos na terra da rainha. Mas à noite eu sempre voltava para o meu hotel sozinha, já que como a minha companheira acertou tudo bem em cima da hora, não havia mais vaga no mesmo hotel que eu.

A resposta sobre como ficar sozinha está dentro de você

E foi assim que de pouquinho em pouquinho, e depois de muitos meses de ponderação diária, um belo dia eu acordei com a certeza de que estava pronta para me aventurar pelo mundo, apenas eu e minha mochila. Como eu já escrevi outras vezes, isso não significa que eu estivesse efetivamente sozinha todo o tempo, mas no fim das contas, se eu quisesse me isolar e ter um tempo só pra mim, não havia nenhum empecilho.

Depois dos 10 meses que passei viajando, algumas coisas não me assustam mais, como ir a uma exposição sozinha, ou passar uma tarde num parque desacompanhada. Mas é que hoje eu estava fazendo a limpa nos links salvos no meu computador e acabei esbarrando nesse vídeo que me lembrou exatamente de como foi estar cada vez mais confortável em não ter necessariamente alguém por perto.

Viajar sozinha é um passo que pode parecer assustador para alguém que não está acostumada com a própria companhia, mas você pode sempre começar aos pouquinhos. Uma tarde numa feira de antiguidades aqui, um final de semana na praia ali, e quando se dá conta, comprar uma passagem e reservar um hotel apenas para uma pessoa não parecem mais coisas tão assustadoras assim. É nesse momento que você percebe que já sabe como ficar sozinha. 

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