Há muito ensaio escrever sobre o tema, hoje, após um bom tempo de chuva e adaptação a mudança de rotinas, sento os pés no chão de uma praça em Mendoza, oeste argentino, e me permito fluir livremente. Dia após dia escuto frases que vão desde “como você não tem medo?” a “parabéns pela coragem!” e diariamente questiono que merda de realidade é essa onde saludamos um ser pelo simples fato de exercer seu direito de existir e se locomover pelo mundo.

Não serei hipócrita, há de se ter coragem para seguir entre rodovias ou cidades estrangeiras com uma mochila nas costas que por vezes pesa mais que o peso do seu próprio corpo. Mas atentem! Isso não se passa porque como mulher desajustada vim ao mundo com o dom de uma suposta bravura, ou como muitos insistem em dizer, alguma loucura, e sim porque como mulher sofro riscos que viageiros homens relatam nunca ter sequer imaginado viver e isso sim é um desajuste.

Ser e mulher e viajar sozinha…

Por aí vou entendendo a empatia de tantas companheiras que a distância enviam mensagens buscando notícias além de pedir por sopros de ânimo para também empreender liberdade em um mundo cão. Quer dizer, o mundo em si, o que é feito de Cordilheira dos Andes, lagos no interior de Córdoba, ventos uruguaios soprados na cara; é encantador, assim como toda a gente e amores encontrados entre os caminhos das selvas de pedras, mas o machismo que muitos insistem em ser “coisa do século passado” segue contemporâneo na vida de viageiras pelo mundo. 

Disse que não iria mentir, ser mulher me facilitou, se é que essa é a melhor expressão a ser usada aqui, uma série de experiências a qual sou grata por haver descoberto até esse ponto da viagem. Entretanto, ser mulher também me causou os maiores sustos já experimentados até hoje, os quais poderiam ter custado o preço de agora ser mais uma estatística dentro de um sistema como o nosso. E é na contramão dos desajustes que sigo, seguimos, seguiremos. Juntas!

Texto escrito por Amanda Ruiz

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