Por Marianne Costa*

Só hoje me dei conta de que passei as últimas três viradas de ano na Amazônia. São três anos de recomeços, de cura e de relacionamentos sérios. Com os outros, com a floresta e comigo mesma. Em 2017, passamos o Ano Novo eu, Maria Luiza (minha filha) e Marcelo (meu ex-marido) ressignificando o que viria a ser nosso novo formato de família, dali em diante não mais casados. Foi forte, intenso, doído. Me emociono só de lembrar.

Os dois ficaram doentes e eu ali me desdobrei entre os cuidados com eles (família) e a atenção com alguns clientes (trabalho), sem nenhum tempo para olhar para mim e refletir sobre aquele recomeço. Foram 5 dias naquela cabine, navegando no Rio Negro. Nossa última viagem juntos, os três. E o barco da vida seguiu, cada um para o seu lado.

O ano de 2017?

Um caos físico e emocional. Os meses passaram e hoje, relembrando, só posso comparar com uma montanha russa. Oscilei com muita intensidade entre a extrema tristeza e a super euforia. Tinha dias que eu achava que minha vida não tinha mais sentido.

Culpa, medo e solidão competiam bravamente com minha alegria de viver, minha vontade de ganhar o mundo e de ser a melhor mãe para Maria Luiza. A Vivejar, meu novo desafio profissional, só tinha três meses. Maria Luiza, minha filha, 4 anos e meio. Eu saindo de um relacionamento de quase 10 anos e voltando para São Paulo, a cidade que eu menos desejei estar nos últimos tempos.

A vida me levou neste ano como o vento balança as árvores por aqui na Amazônia, como traz e leva as tempestades, como sobe e desce o volume das águas nos rios, de uma forma que os olhos não conseguem compreender. Foi neste ano que eu finalmente senti na pele aquela frase de Guimarães Rosa que diz que a vida quer da gente é CORAGEM. E fui recebendo os primeiros sinais de que a Amazônia não entrou na minha vida por acaso.

Bons ventos para cá me trouxeram mais vezes durante o ano

Amazonas, Pará, Acre… indígenas, ribeirinhos, povos da floresta, amigos. Todos, à sua maneira, me guiando para as minhas respostas, a minha cura. Em 2018 eu voltei.Desta vez com um barco cheio de clientes e amigos.

Voltamos, eu e Maria Luiza. Família e trabalho de novo juntos. Com mais leveza, um pouco mais de foco, mas ainda me deixando levar pelos ventos, pelas águas. E a Amazônia vem logo e diz: “Esse ano não pode ser assim não. Não vai começar o ano carregando esses sentimentos ruins. Larga isso aí em 2017”.

Para limpar minha alma de vez fui agraciada com a Malária, que castigou meu corpo com dores, febre, calafrios e me obrigou a parar. Foi com essa doença difícil que meu processo de cura se acentuou.

Depois do tratamento alopático intenso para recuperar minha saúde física, foi a vez de olhar a minha cura espiritual. Passei o ano me dividindo entre os cuidados com Maria Luiza e com o trabalho, mas também investindo algum tempo em mim, cuidando da minha energia, entendendo que, para que eu possa viver o amor e a abundância que eu desejo para mim e para os meus, eu preciso estar bem.

Mas por diversas vezes eu perdi o foco. Me exigi física e emocionalmente além da conta. E o corpo me cobrou, me alertou, me fez andar para trás, me fez diminuir o ritmo, por vezes quase parar.

2019 chegou e cá estou eu de novo. Desta vez, sozinha!

Crédito: Marianne Costa / acervo pessoal

Por quê? Pois eu descobri que o amor, a companhia, a coragem que eu estava buscando sempre estiveram aqui, dentro de mim. E foi aqui na Amazônia, onde a força de Deus (ou da energia, do amor, da luz maior que você acredita) se apresenta no seu estado mais intenso, exuberante e principalmente, abundante.

Aqui que eu percebi que eu sou parte deste ciclo virtuoso de luz; que tudo que eu preciso para realizar, para me curar, para amar está aqui dentro de mim… e só na Amazônia eu consegui me reconectar comigo mesma.

Começo o ano entendendo que as coisas e as pessoas não vão necessariamente mudar, quem vai mudar a forma de lidar com elas sou eu. Que vida é cheia de ventos, tempestades, desafios… mas desta vez eu assumo o comando do meu barco e sou eu que vou dar a direção aqui.

Assim como as pessoas, para sobreviver na floresta, precisam observar, ouvir, esperar o tempo certo, estou aprendendo a me observar, ouvir meus sentimentos com gentileza e me impor um ritmo que eu dê conta de acompanhar!

Feliz Novo Ano!

*Marianne Costa é turismológa e fundadora da Vivejar

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