Sonhei que beijava
a terra numa manhã seca
figuras de Ganesha voavam
vermelhos, ao léu
o beijo é o elo entre mundos
eu-sol-terra-tudo
crustáceos redondos nas nuvens
abóbodas, cumes, penhascos
arranha céus
 
Acordei tonta
estava na minha barraca ainda
embarealhei as cartas
e consultei o Oráculo
tirei o arcano zero do tarot
(o nada é
e a tudo retorna
o nada é o todo no vazio)
um tucano grita
e se esconde lá fora
arrepiam os pêlos do braço
araras passam em casal 
estou acampada no Vale do Caparaó
entre as cascaveis
numa viagem arredia

Imagem: Letícia Spier / acervo pessoal

 
Costumava caminhar
em silêncio e só
mas não nesse dia
me chamaram para subir um pico
sem pestanejar, aceitei
imaginava montanhas amarelas
riquezas feitas de ouro em pó
 
A subida foi uma conversa 
entre eu e eu
passadas rápidas para o alto e forte
braço rochoso do infinito
estou entre o Pico da Bandeira
e a minha própria sorte

Imagem: Letícia Spier / acervo pessoal

 
Fiz uma parada, sentei
nas pedras esmoreci
ainda falta o cume!
o berço do Gigante 
a Casa da Magia
meus colegas me alcançaram 
e gentilmente me levantam
mas eu sou a sombra nas estepes
estou a três mil metros de altura
e minha perna esfria
 
Se Crowley, Hegel, Otto Meiling trilharam os cumes
porque eu também não subiria?
 
Com todo o meu orgulho
subi um impávido e bruto cume
entrei em êxtase, chorei
parti meus joelhos em mil pedaços
desci tonta, em frangalhos
e ao mesmo tempo
muito agradecida pela vida
 
Ao voltar para o acampamento
tive uma súbita hipotermia
vi roxas as pontas das mãos
era inverno e o vento esperneava
e me batia
 
Me entreguei
a uma deliciosa sensação
de que nada mais era importante
o importante era o nada
o número zero era também o último
o início e o fim estava na minha face
numa dança mórbida
uma sincope envolvente
sincronizada coreografia
 
Alguém me olhou
e mais do que olhar, viu
viu além dos olhos
e do que alcança o simples enxergar
a Senhora Morte ao meu redor sorria
estava explícita
quase a olho nu aparecia
essa pessoa anônima correu
gritou algo 
mas eu não ouvia
 
Pulsos cardíacos alucinantes!
altos e fortes, pula, vibra
taquicardia
lá longe
a realidade me parece distante
um zig-zag de corpos turvos
que estranha sensação
tudo aquilo me entretia
 
Me deram um prato de comida
sorte de forasteira, minha Deusa, que dia!
colocaram pimenta em tudo
me carregaram até uma fogueira
recebi massagem, cobertores
em sete segundos meu corpo normalizara
minha consciência
por onde andou por todo esse tempo?
voltei pra tudo, acordei
que bobeira a minha! 
estou em companhia dos anjos do fogo!
anjos alados, amigos de Perseu!
desperdiçar minha vida? 
que tolice a minha
 
Minha couraça de orgulho foi queimada
ali, naquele instante
com os anjos do fogo, ressuscitei
entre a vida e a morte
estava na porta
estive ali
 
Na viagem quântica cigana
desperto a ancestralidade
nomadismo desconhece fronteiras
espaço ou tempo
desconhece até a falha trama que separa a vida
apenas ri, e quando ri segue
e quando segue se torna um com o chão
terra eterna dos meus pés
 
Caminhar é ser eterno
 
A Bandeira levanta-se todas as manhãs
com um ímpeto de bravura
mescla de humildade e ousadia
ao olhar a Terra de um alto cume
só posso dizer: o mundo é longe
assutadora e redonda epifania
 
Tornei-me viciada
em altura e montanhas difíceis
principalmente em pimentas muito picantes
a poção do Louco que me salvou a vida
hoje ensino este segredo
a todos os participantes do meu caminho
também faço picante
meus amores, pratos e cores
paladar é sabedoria
 
 
Aos anjos do fogo, ofereço minha homenagem
me deram cobertas, amparo
colegas de acampamento e jantares
sou grata!
o Pico da Bandeira
tornou-se minha admiração 
meu alívio de ser sobrevivente 
mas ele não erguerá
a bandeira da minha passagem
não verá o meu encontro
com os chacais de Anúbis
tampouco cantará
a minha canção de despedida.
“Compus esses versinhos em julho de 2014 após descer o Pico da Bandeira, no Espírito Santo. Ele é um dos maiores picos do Brasil. Então foi uma experiência surreal, transcendental e muito cansativa”.

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