Viajar sozinha para o Egito: como visitar um país hostil com as mulheres?

Imagem: Thaís Macedo / acervo pessoal

Sabemos que, apesar da luta das mulheres por representatividade, igualdade de gênero, ainda estamos em um mundo machista, infelizmente. Nós, mulheres viajantes, percebemos isso já na hora de escolher o destino. Homens, ao decidirem fazer uma viagem, pesquisam sobre as atrações, os pontos turísticos e preços. Nós adicionamos um item fundamental: a segurança para mulheres.

O grande barato de viajar é conhecer a diversidade de lugares e culturas. Porém, alguns países acabam ficando de fora da nossa listinha por medo de confrontarmos a sua sociedade extremamente machista e violenta. É difícil enfrentar esse medo (real) para conhecer um país, quando uma rápida pesquisa nos mostra tantos casos de sequestro, estupro (algumas vezes coletivo) e uma enorme hostilidade com as mulheres.

Em 2016, o Egito foi eleito o pior país árabe para mulheres, segundo estudo realizado pela Thomson-Reuters. A pesquisa (realizada em 21 países da Liga Árabe mais a Síria) revelou que 99,3% das egípcias já sofreram assédio sexual e 27,2 mulheres foram vítimas de mutilação genital.

A base do estudo foi o documento da ONU “Convenção Para Eliminar Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres” e também considerou eventos recentes importantes, como a Primavera Árabe. Com dados tão assustadores, é difícil colocar esse país no roteiro de uma viajante, mas foi o que fiz em 2017. Afinal, poder usar a legenda “essa é a mistura do Brasil com Egito” me divertia.

Imagem: Thaís Macedo / acervo pessoal

Viajando sozinha pelo Egito

Decidir ir para o Egito foi desafiador e exigiu extensa pesquisa (e coragem), mas muito recompensador. Uma paisagem desértica linda, um Nilo exuberante trazendo vida, uma cultura riquíssima que resiste ao tempo e monumentos que vão além das famosas pirâmides.

Enfrentando o medo inicial, pude aprender sobre muitas mulheres que tiveram papel fundamental na história do país. Nefertari, além de ter o seu próprio templo, está sempre representada ao lado do Faraó Ramsés II, indicando que era influenciadora direta nas suas decisões e tinha grande poder político.

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Rainha Nefertari / divulgação

Já Hatshepsutfoi foi uma mulher que se tornou faraó e que reinou por 22 anos, período reconhecido como de prosperidade e paz, além de ter levado grandes avanços para o Egito. Pude admirar a resistência das mulheres que hoje enfrentam a sociedade e se mostram fortes no trabalho, criando os filhos e circulando determinadas pelas ruas. Que lindo conhecer tudo de perto! Essa experiência me ensinou que é possível visitar países mais complicados para mulheres, só precisamos de (mais) alguns cuidados extras.

Cuidados indispensáveis para viajar sozinha pela Egito

ANTES DA VIAGEM

Informação é segurança, portanto vale consultar os sites e relatos de quem já viveu a experiência. Sempre prefiro viajar sozinha, mas neste caso é recomendável ir com uma companhia (família, namorado, namorada, amigo, amiga). São tantos os cuidados necessários, que estar com alguém nos momentos de vulnerabilidade ajuda a gente se sentir mais segura. Na hora da hospedagem, escolher zonas urbanas e com avaliações feitas por mulheres.

ROUPAS

As roupas também devem ser escolhidas considerando a hostilidade do ambiente. No Egito, mesmo com o calor de 200° graus na sombra e 15 sóis para cada indivíduo, é preciso cobrir o corpo o máximo possível. Não foi preciso usar o lenço na cabeça (só é exigido em algumas mesquitas) e batas e calças eram os itens mais práticos, pois quanto menos “pele”, melhor. As burcas são menos comuns no Egito, mas ainda assim foi possível vê-las. Em Luxor, a nossa guia, que usava apenas o lenço, disse que antigamente ali era uma cidade mais moderna, mas a onda conservadora cresceu no país e as mulheres foram ficando cada vez mais cobertas.

PASSEIOS

Foi preciso abandonar um pouco o espírito aventureiro para agendar passeios com o hotel/hostel. Não dava para sair por aí lendo placa em árabe e correndo o risco de ficar perdida. Andar de transporte público é importante para entender a cidade que visitamos, mas para países como o Egito, é recomendável não utilizar se estiver sozinha e evitar quando estiver só com mulheres. No meu caso, fui de trem com três amigas de Cairo a Aswan em um vagão só com homens, por 12 horas. Sobrevivemos, mas se não estivéssemos juntas, seria melhor desistir da ideia. Andar na rua sozinha, somente de dia e por locais movimentados.

ASSÉDIO

É preciso se preparar psicologicamente, pois lá somos tão discretos como um ET andando na rua. Mulheres e crianças nos apontam, pedem para tirar foto e o assédio masculino é grande e constante. Mesmo discordando (e muito!) da cultura local, precisamos entender que nosso visual é muito diferente. O povo egípcio é muito receptivo, alegre e gosta de conversar, então com o tempo vale fazer uma aproximação para aprender sobre a vida deles.

Com cuidados redobrados, é possível sim, visitar países de cultura hostil para mulheres como o Egito, a Índia, Marrocos, Irã etc. Não só possível, como se torna uma experiência enriquecedora. É encorajador desbravar um país “para homens”. É mais um espaço que conquistamos, mais uma vitória sobre a opressão e, com os cuidados redobrados, mais uma história linda para contar.

 

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Thaís Macedo
Caipira com o coração carioca e publicitária de formação. A mulher que largou a carreira corporativa para viajar o mundo.

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