Ça c’est Paris: as derrotas de uma viajante inexperiente

Imagem: Pexels

Queria escrever sobre Paris … Que privilégio escrever sobre a Cidade Luz, não é? Ao mesmo tempo que coisa mais… óbvia! Todo mundo sabe tudo sobre Paris. Mesmo sem nunca ter pisado em Paris, está tudo já escrito, está tudo relatado, tudo esmiuçado.

Dá um google e pronto! Tudinho lá: como se chega, onde ficar, o que fazer… Mas e se eu tentasse fazer diferente? E se tentasse contar as derrotas de Paris? Não as derrotas de Paris como cidade, porque, na boa, não há, desculpa aê, mas as minhas derrotas, de viajante, de inexperiente? Ok.. Vamos lá.

As derrotas de uma viajante inexperiente

Derrota 1! Os primeiros dois dias em Paris! Caraca! Cheguei animadona, cheia de saudade do namorido (ele chegara antes de mim na Europa. Ficamos de nos encontrar em Paris), toda amor.

Fiz francês na faculdade, estava louca para treinar meu sambarilove. Só que existe esse negócio de fuso horário. A diferença nem é tão grande assim, quando muito, são somente cinco horas. Mas fala isso para essa minha cabeça irrequieta que não dormiu nadinha nos dias (plural: diassss) que antecederam minha viagem. E fala isso também para esse corpo minúsculo (gente, tenho 1m57cm!) que não sossegou no avião. Pois bem. Cheguei em Paris com a corda toda mas moooorta, mortinha da silva, sem ter dormido nada! Eu era uma múmia, uma sonâmbula. Não conseguia fazer nada direito, eu era o sono em pessoa.

Meu noivo, feliz por estarmos lá juntinhos e tal, queria andar, caminhar, explorar… Eu só queria dormir. Mas quem disse que se pode dormir em euro?! De jeito nenhum! Está pagando várias vezes sua moeda, trate de andar e ser feliz! E sorrindo! Dormir é para os fracos! E foi o que fiz! Andei, andei, andei e andei mais um pouco… Se sentasse, dormia. Andava mais um pouco, dormia.

Resultado? Toda pessoa que vai para França volta com um álbum de dar inveja a qualquer um. Eu? Em metade das fotos da viagem estou dormindo. Na outra metade, estou com uma olheira mega ultra power cultivada em meus momentos insones. Se não estiver prestando atenção, posso claramente passar por um panda. Hoje, quero mostrar minhas fotos, colocar nas redes sociais, mas meu sentimento de autopreservação não deixa: estou muito ruim nelas.

Derrota 2!

Meu namorido voltando para o Brasil antes de mim. Fiquei fazendo um cursinho de francês e, claro, quando não tinha aula, saía flanando por Paris. Nossa, como eu estava chique! Eu era só orgulho e curiosidade. Um dado momento, avistei um banheiro daqueles ultramodernos, público. Já apertada e com medo de não ter outra oportunidade, parei na frente da porta fazendo fila. Em poucos instantes, saiu um cidadão e, super educado, segurou a porta para mim. Eu, com minhas moedinhas na mão (o banheiro era pago), fiquei meio que me questionando o que faria com elas, uma vez que a porta já estava aberta e eu não tinha mais motivo para colocá-las no buraquinho indicado.

Ok. Estava na minha hora, resolvi sair entrando e fazendo o que tinha que fazer. De repente, do nada, no meio dos meus trabalhos, as luzes se apagaram, um apito começou a tocar e o banheiro começou a inundar. Eu, com as calças arriadas, no meio do xixi, fiquei desesperada! Tratei de interromper meu serviço e de vestir minhas roupas o mais rápido possível.

Imagem: o banheiro do mal

Saia água de tudo que era canto das paredes, meu sapatinho de tecido já estava encharcado, meu xixi cortado pela metade, as luzes apagadas… e a porta não abria! Estava presa lá dentro, sendo lavada junto com o banheiro! Comecei a pedir socorro,  mas não adiantou!

Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, a água foi descendo, os jatos diminuindo e como em um passe de mágica a porta se abriu: era um outro usuário que havia colocado suas moedinhas para utilizar o mictório.

Saí de supetão, toda molhada, toda assustada, as pessoas me olhando. Só depois de muito tempo fui entender: ao segurar a porta do banheiro para mim, o cidadão cavalheiro não permitiu que o banheiro entrasse em seu ciclo de lavagem. Ao fechar a porta – comigo lá dentro – o sistema acionou o modo de limpeza, daí toda aquela água em cima de mim e a porta trancada. Moral da história: leia instruções. Estava tudo escrito, explicadinho, na porta. Se eu tivesse prestado atenção no processo de limpeza do banheiro, teria ficado sequinha até o final do dia.

Até que é bem libertador dividir derrotas. Já tive outras, não só na França, mas em muito lugar. Já fiquei presa do lado de fora do prédio em Miami enquanto minha amiga dormia longe do celular, já perdi trem em Portugal por ter virado a noite e não conseguir acordar a tempo, já perdi voo em Amsterdã por causa de um pacote de batata frita (dizem que a batata frita de Amsterdã é a melhor mundo) e por aí vai. E até do Rio mesmo, tenho uma coleção de derrotas. Só que isso é papo para outros textos… no plural mesmo.

 

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Natasha de Pina
Carioca curiosa, minha paixão pelas letras veio da impossibilidade de se conhecer o mundo todo em somente uma vida. Se não posso ver tudo fisicamente, que o faça pelos livros também. Minha vida é escrever e viajar. Não necessariamente nessa ordem.

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