Sobre viajar sozinha e não estar só

Analu Bento (arquivo pessoal)

Depois de um dia intenso de escalada nas paredes de calcário de Krabi na Tailândia, eu confesso que pensei seriamente em nem ir jantar. Mas a fome foi maior que o meu cansaço e, apesar da falta de forças, consegui me arrastar até o restaurante quase ao lado do albergue.

Logo após eu sentar, um grupo grande de ingleses chegou. Como eles eram muitos e não caberiam em só uma mesa, começou um pesadelo de logística para tentar pegar uma mesa do outro lado do salão. A ideia era  juntar na que estava vaga ao lado da minha. Quando entendi a situação, eu me ofereci para trocar de lugar e facilitar a vida deles. Mas aí um dos ingleses me pergunta: Você está sozinha? Arrasta a mesa pra cá e senta com a gente então!

Bom, quando eu vi, já tinham movido a mesa e eu, que pensei seriamente em nem sair do hostel aquela noite, de repente estava numa mesa com mais 9 pessoas que eu não conhecia até 5 minutos atrás. Depois de algumas horas na companhia daquela galera foi que caiu a ficha: eu já estava viajando “sozinha” a alguns meses, mas na verdade, uma das coisas que eu menos fiz foi ficar sem companhia.

Várias questões estão envolvidas no medo de viajar solo, mas o receio da solidão é um dos maiores. A impressão que eu tenho é de que a maioria das pessoas não sabe o que fazer nem como agir se não houver um conhecido do lado para rir junto, se aventurar junto ou simplesmente validar a experiência.

Viajar sozinha não é estar só

O que essas pessoas não entendem é que durante a viagem você vai acabar conhecendo outras pessoas, mesmo quase sem querer, como na minha história. Principalmente em albergues, mas não apenas neles, existe muita gente que está na estrada sozinha e acaba naturalmente se juntando a outros viajantes para uma atividade aqui ou ali.

Pode ser que você faça amizades para a vida toda ou só pela duração de uma refeição. Se essa for a sua vontade, é fácil achar alguém para dividir o momento com você. O que não falta é gente nesse mundão de seja-qual-for-o-seu-deus disposto a te acompanhar num passeio ou jogar conversa fora numa mesa de bar. E foi assim que eu acabei fazendo escalada, nadando no mar à noite (um dos maiores medos da minha vida), provando gafanhotos fritos e até tomando banho de lama.

E se não achar ninguém, tudo bem também! Uma parte importante das viagens solo é aprender a apreciar a sua própria companhia. É perceber que você é capaz de resolver os problemas que aparecem sem a ajuda de ninguém. É escolher o restaurante onde você vai comer de acordo com as suas vontades e não pelas restrições de dieta da sua amiga. É passar quanto tempo você quiser no museu porque não tem ninguém regulando o tempo que você passa em frente cada quadro. É ter passe livre para ser 100% você mesma e não o que esperam de você.

Sozinha ou acompanhada, o que importa é fazer o que se tem vontade. Se a sua vontade é ir para aquele destino incrível, mas ninguém pode te acompanhar por motivos financeiros, ou as férias não batem, ou simplesmente não acham graça no lugar, apenas vá. Pode ser que você passe momentos maravilhosos contemplando uma bela paisagem sozinha ou rachando um táxi de volta da balada com pessoas de três nacionalidades diferentes. Você nunca vai saber o que poderia acontecer até tentar.

Analu Bento
Rainha da contradição. Adora adjetivos que começam com pseudo. Viciada em cinema e seriados. Em constante procura por bandas que ninguém mais conhece. Bióloga que virou English teacher. Estranhamente obcecada por caveiras. Mochileira por vocação. Blogueira de ocasião. Carioca da clara. No momento, tentando escrever para o M pelo Mundo e Crônicas de uma Pessoa Comum, enquanto faz o possível para sobreviver em Pequim sem falar chinês.

Analu Bento, muito prazer.

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