Perrengues em viagem: sempre tem um que nos faz amadurecer

Estela Alves/ acervo pessoal

Fui morar em Nápoles, no sul da Itália, que por si só já é uma experiência incrível. Mas ir para lá com o pé recém-operado foi le-gen-da-ry, como diria o Barney Stinson do HIMYM. Para contextualizar vou descrever o que aconteceu e como fui parar lá. Porém resumidamente, já que esse não é o foco do texto. Entre 2014 e 2016, fiz um mestrado Erasmus Mundus de dois anos, onde cada semestre é em um país diferente, primeiro França, depois Itália, Portugal e por último, um estágio. Logo no primeiro semestre na França quis explorar e aprender novos esportes. Na primeiríssima aula de badminton, rompi o tendão de Aquiles e tive que ser operada e dentro de alguns meses me mudar para a Itália.

Imagem: Eu com bota ortopédica e muletas indo numa festa a fantasia na França / acervo pessoal

Perrengues em viagem: sempre tem algum!

O perrengue já começou no deslocamento da França para a Itália. Viajar sozinha, com bota ortopédica, muletas e malas não é nada agradável. Principalmente, para a gente que viaja sozinha, que se acha super independente, feminista, fortona e blá blá blá. Naquele momento, mais do que nunca precisei dos outros, de estranhos, de taxistas e de funcionários do aeroporto.

Depois, com a ajuda do Luca, um amigo italiano, consegui um lugar provisório para morar. Na casa de um amigo dele Marco que iria viajar por um tempo. Ele alugou seu quarto para mim. Morei com três napolitanos da gema: Antonella, Valentina e Estefano num dos Quartieri Spagnoli, famoso e histórico bairro da máfia napolitana. Reconhecido pelos grandes problemas de coleta de lixo e centenas de varais com roupas penduradas para secar. Lembro até hoje do cheirinho de amaciante que sentia no ar.

Imagem:Comendo ragu napolitando maravilhoso com Marco e Estefano / acervo pessoal

Quartieri Spagnoli

Era bem fácil de se perder nas ruas estreitas dos Quartieri Spagnoli (até porque o GPS não pega lá dentro), não passa carro por elas, somente dos próprios moradores e muitas motos tipo Vespa. Tudo é bem animado. Crianças brincando, muito comércio, às vezes passa um batuque, toca o sino da igreja, um pessoal briga aqui, outro conversa lá (no final das contas toda conversa parecia uma briga!).

Eu poderia comparar os Quartieri Spagnoli com favelas pela sua vitalidade e com centros históricos degradados de algumas das cidades brasileiras, pelo abandono e má conservação dos edifícios. Enfim, eu estava no coração de Nápoles. Marco no primeiro dia, já fez um tour comigo e me apresentou para a comunidade, eu e minhas muletas.

Por sorte, Valentina, a napolitana que morava comigo trabalhava num escritório de fisioterapia, onde fiz algumas sessões. A comunicação era complicada, ninguém falava inglês, então coloquei em prática todo o meu italiano. Parecia que estava dentro daquela novela Terra Nostra, que eu era um personagem. Mamma mia!

Como eu adoro falar italiano, é uma língua tão expressiva, tão intensa! Bom, as 80 sessões recomendadas pelo médico francês passaram é ser 20. Meu fisioterapeuta, Salvatore, um napolitano típico, achou que 80 era demais, não precisava! Ele era gordinho, baixinho, tinha mãos grandes que me judiaram bastante e como ele falava alto! Meu Deus!

Acho que falava mais alto que o normal justamente porque eu era estrangeira, para me ajudar a entender! Eu chegava lá de manhã, meio dormindo ainda para fazer fisioterapia. E ele vinha quase gritando, super animado, dizendo: Buongiorno, bella! Come stai?. De certa forma eu me sentia um pouco em casa em Nápoles. Era uma cidade mais perigosa e suja que outras cidades europeias ou do norte da Itália, as pessoas eram espontâneas, falavam alto, me identifico com essa bagunça.

As coisas que aprendemos com os perrengues de viagem

Do jeito que a gente fala, entre passeios, praias, gelatos, pizzas e massas. Parece que tudo foi lindo e maravilhoso. Mas eu que sou ansiosa e que amo conhecer coisa nova, tive que me segurar. Não dava para ficar andando para cima e para baixo, como faço normalmente. Tive que ficar bastante em casa, pelo menos nos dois primeiros meses. Eu poderia ter largado tudo, voltado para o Brasil. Mas resolvi enfrentar a situação e encarar os desafios sozinha, falei para meus familiares que não havia necessidade de vir para a Europa me ajudar!

Hoje tenho orgulho dessa história que me engrandeceu tanto pessoalmente e que me mostrou que os perrengues desse tipo são necessários, para nosso próprio autoconhecimento e amadurecimento. Todos deveriam ter a oportunidade de ter uma experiência de intercâmbio e imersão cultural, mas esse já é tema para outro texto.

Acho que é nos momentos mais difíceis que estamos mais abertos para receber ajuda do próximo na humildade, é aí que se integra e se conecta mais com o outro, com a outra cultura. Lembro do dia que doei minhas muletas e bota ortopédica numa igreja de Nápoles. O moço ficou tão feliz, acho que ele nem imaginava o quão esplendida eu estava por dentro. Além de estar andando de novo, eu estava retornando para aquele povo, tudo o que ele me ofereceu.

Para finalizar eu queria contar um último fato. Não me esqueço do dia que sai de casa pela primeira vez só com UMA muleta, ao invés de DUAS, e os comerciantes da rua onde morava num dos Quartieri Spagnoli (que me conheciam porque eu passava ali todo dia para ir para a faculdade) notaram meu esforço (eu estava morrendo, estava fácil não!), reconheceram a conquista e gritaram: BRAVA! BRAVA!

Obrigada, Itália!

 

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Estela Alves
Arquiteta, bailarina, nadadora amadora, professora de francês e youtuber. Começou um canal no Youtube "Estela Viaja" com enfoque em viagens low cost e mulheres que viajam sozinha para incentivar, facilitar e dar dicas para mulheres que querem viajar.

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