Livia Bergo: “ser nômade digital é ter clareza dos objetivos e não sofrer pela insegurança do percurso”

Imagem: Lívia Bergo / acervo pessoal

Para algumas pessoas o mundo é uma casa, rotina não é preciso, o trabalho pode ser realizado via computador e de qualquer lugar. Essas pessoas se denominam nômades digitais e estão nos mais diferentes lugares deste planeta. A Livia Bergo, criadora do canal “Malas para que te quero”, é uma nômade digital. Ela e seu marido Cadu decidiram deixar o conforto de uma vida rotineira para cair no mundo em busca de novas experiências. Na coluna “Minas Viajantes que Escrevem”, desta semana, conversamos com a Lívia sobre o que é ser uma nômade digital, quais são as dicas para quem quer viver assim e muito mais. Confira!

M pelo Mundo – Lívia, você vive como uma nômade digital. Você poderia explicar como é esse estilo de vida para as nossas leitoras?

Livia Bergo  – Até alguns anos atrás, as pessoas que queriam viajar pelo mundo e não ter uma moradia fixa só tinham duas opções. Ter bastante dinheiro ou procurar empregos temporários em cada lugar por onde passassem. Nos últimos anos, a difusão da banda larga popularizou o trabalho à distância, que passou a ser cada vez mais aceito em empresas do mundo todo. Assim surgiram os nômades digitais, que, como eu, optaram por ter uma profissão (ou várias) que lhes permite trabalhar remotamente, através de seus computadores.

M pelo Mundo – Quando e por que você decidiu se tornar uma nômade digital?

Livia Bergo – A ideia surgiu em 2014. Eu ainda trabalhava em uma multinacional. Ao contrário do que costumam contar por aí, esta vontade não bateu quando estava no auge de uma carreira bem sucedida. Mas sim quando estava super frustrada e sem perspectiva. E que bom! Certamente não me faltava coragem para enfrentar um novo destino. Durante a vida, já havia me mudado de casa (e muitas vezes de cidade) pelo menos 15 vezes. Fiz as contas, economizei para os custos iniciais, vendi todas as minhas coisas, contatei antigos clientes da minha época de freelancer e fui!

M pelo Mundo – Quais são as vantagens e desvantagens?

Livia Bergo – Para mim, existe uma série de vantagens. Posso trabalhar literalmente de onde quiser. Não enfrento trânsito e não preciso gastar com carro, roupas, amigo oculto de fim de ano e tudo mais que vem no pacote dos trabalhos formais. Além disso, o dia a dia é bem menos entediante quando estamos em um local novo aprendendo sobre outra cultura. E definitivamente não preciso gastar dinheiro com férias caríssimas para me “desestressar” da rotina.

Uma desvantagem que muita gente ignora é a burocracia que precisamos enfrentar em alguns países para permanecer mais tempo que um turista comum. Também é difícil se desconectar de um trabalho cujos principais instrumentos (laptop e celular) te acompanham o dia inteiro. Certamente hoje trabalho mais horas por dia.

E não posso deixar de citar a constante insegurança que o trabalho sem vínculo empregatício traz. Eu sempre digo que este é um fator definidor: para ser um nômade digital é necessário ter clareza de seus objetivos e não sofrer pela insegurança do percurso. Se você perde o sono pensando na hipótese de não ter dinheiro na conta mês que vem ou por deixar de usufruir de alguns luxos, talvez esta vida não seja pra você.

M pelo Mundo – Qual conselho você pode passar para as leitoras que também querem viver como nômade digital?

Livia Bergo – Acredito que o primeiro passo é pesquisar bastante sobre o tema. Ler depoimentos e conversar com pessoas que já experimentaram. Como já citei, a vida nômade envolve se desapegar de tudo, vender móveis, decoração, roupas. Tudo que não couber dentro de uma ou duas malas. E pra partir para o exterior é necessário um gasto inicial considerável com passagens e documentos.

Acho que seria bem frustrante fazer tudo isso e ter surpresas desagradáveis já no primeiro mês. Uma vez decidido que é isso mesmo que você quer, economize. Será necessária uma certa soma de dinheiro inicial e ter uma reserva vai te dar mais segurança para os primeiros meses de incertezas. Além de já servir de treinamento para sua vida futura.

A base da sobrevivência daí pra frente passará certamente por economia. Viver com o mínimo necessário. Afinal, não será possível montar uma casa completa em cada destino por onde você passar, não é mesmo? E minha última dica é: procure um emprego remoto ou novos clientes (caso você seja uma freelancer) ainda no Brasil. Apesar das pessoas estarem cada vez mais abertas a trabalhar com alguém à distância. Muitas delas fazem questão de ter pelo menos um encontro presencial.

Dedique dois ou três meses do período pré-viagem a essa prospecção de trabalhos. Monte uma carteira de clientes que poderão a partir daí te acionar sempre. Claro que outras oportunidades poderão surgir (até mesmo no exterior), mas é fundamental ter algo já certo para se jogar nesta jornada de novas incertezas que te espera lá fora.

 Malas para que te quero: canal de nômades digitais sobre dicas de viagem

M pelo Mundo – Você e o Cadu são criadores do canal “Malas para que te quero”. Como surgiu a ideia de criar o canal?

Livia Bergo – Eu sou da área de audiovisual. Quando decidimos sair do país, essa ideia começou a brotar. Talvez por estarmos naquele momento assistindo mais conteúdo no YouTube sobre o tema. Ao mesmo tempo que adoramos alguns canais, também sentimos falta de muitas informações.

Quando começamos nossa jornada, na Itália, percebemos a quantidade de coisas que acabamos descobrindo na marra, sozinhos. E a ideia foi fazendo cada vez mais sentido. Começamos, então, a filmar todos os lugares por onde passamos e a documentar as novas informações. Com o feedback positivo que tivemos dos primeiros vídeos do canal e artigos do site, nos animamos de vez a dedicar mais tempo a isso.

M pelo Mundo – Qual é o objetivo do canal e a periodicidade dos vídeos?

Livia Bergo –Nosso objetivo é ajudar quem pretende viajar ou morar no exterior. Temos dicas de roteiros, curiosidades sobre lugares, ideias para viajar barato, informações sobre o nomadismo digital etc. E nossa marca pessoal certamente é aquela pitadinha de humor. 😉

Como o canal ainda não é uma fonte de renda para nós, a periodicidade dos vídeos não é fixa, pois temos que dividir nosso tempo entre ele e nossos demais trampos. Por isso, cada curtida, compartilhamento e inscrição no canal ajuda muito a caminharmos para nosso objetivo de um vídeo por semana! Para quem quer acompanhar essa nossa jornada e saber mais sobre a vida nômade, recomendo, além da inscrição no canal, que siga nossas redes sociais – Instagram, Pinterest, Facebook e Twitter –, onde publicamos diariamente.

M pelo Mundo – Como é viajar e estar constantemente com seu marido? Acredito que não haja rotina rs.

Livia Bergo – Tenho que admitir que a nossa mudança constante de endereço e fuso horário faz o dia a dia ficar menos entediante. Provavelmente fica mais difícil se irritar com aquela mania chata que o parceiro tem de sempre deixar o controle remoto da TV cair no vão do sofá. Afinal, daqui a pouco já estamos em outro sofá. Ou nem teremos sofá ou televisão [esse é o nosso caso, aliás rs].

Mas, por outro lado, a opção por sermos dois nômades digitais na mesma casa faz com que estejamos juntos praticamente 24 horas por dia. Ou seja, os desafios não são os mesmos, mas existem. No nosso caso, porém, temos a vantagem de trabalhar mais ou menos na mesma área e podemos nos ajudar mutuamente, tal como colegas num ambiente de trabalho.

Nem preciso dizer que pra isso é fundamental. Conseguir separar bem o lado pessoal e o profissional da relação, né? Mesmo estando no mesmo ambiente, nossos horários e demandas podem ser diferentes. E o outro tem que respeitar e, principalmente, não atrapalhar! Já falei que isso não é pra qualquer um, né? rs

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