A mulher que viaja traz consigo quem era e uma outra já transformada

Imagem: Pexels

Diferente do turistar, de seguir os mapas e trilhas de outros olhos bem adestrados, que é céu claro e estrada (bem ou mal) pavimentada e, por isso, exterior, para fora; viajar é dentro. Começamos nossas viagens imaginando-as ou criando em nossas intimidades os roteiros de desbravamento do olhar. Sem ordem aparente de acontecência inevitável, viajar transforma quem somos; preparamos a carne para sentir na pele ou, sentindo na pele, permitimos à carne as oportunidades de se transformar.

As turistas não-viajantes retornam ilesas. Desfazem as malas retirando delas os postais e imagens, às vezes acompanhados de histórias quase sempre pré-determinadas e pouco acidentais. A mulher que viaja traz consigo quem era e a outra, transformada a partir da viagem de experienciadora dos sentires e do olhar.

Cresci nômade. Tateio todos os lugares na condição de estrangeira. Meu mundo sou eu.

Pensando no que escrever para estrear meus relatos de viajante, revisitei minhas moradas e livros (porque os livros sempre foram e serão uma das melhores e mais baratas maneiras de viajar), mas, estando em São Paulo, cidade em que trabalho e na qual vivi durante muito tempo, me permiti ser conduzida pelo olhar.

O Teatro Municipal (que tem uma programação linda, muitas vezes a preços acessíveis, e vale a visita guiada, que é gratuita) é parte importante da história da cidade e parte da minha história também. Me refiro a ele porque comecei a pensar nesta coluna durante as aulas que frequento no Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo, que fica sob o Viaduto do Chá, de onde o Teatro e a lindíssima Fonte dos Desejos (realizada por Luis Brizzolara, em 1922) podem ser vistos.

Entre o Teatro Municipal e as histórias impressas nestas salas de dança cabem muitas histórias e mundos. Neste breve, e belo, espaço, imprimo em mim parte da minha experiência. Ao olhar pelas grades da janela da sala negra e sem espelhos, viajo pelas lembranças e estendo o olhar.

Me lembro criança, com a minha mãe, desbravando as ruas centrais da capital paulista, me sinto mulher experienciando novos grupos e novas maneiras de festejar o corpo que sou. Em todos os sentidos e com todos os meus sentidos, perambulo e danço. Viagem é movimento. Viajar é colocar a vida em dança. E “eu só acredito em deusas capazes de dançar”.

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Déa Paulino
Sou dançarina e poeta. Vegana e feminista. Neta da Clélia e filha da Cristina. Acredito nas viagens e nas palavras partilhadas a partir do interior. Nos sabermos muitas, ainda que em vivências de solitude que aumenta e fortalece o desejo de voar.

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