Morar em Paris é sempre uma boa ideia

Paris. Imagem: Luana Ferrari (acervo pessoal/ old fashion way)

É a segunda vez que eu mudo de país. O destino segue sendo o mesmo. Paris. Mas podia ter sido Buenos Aires, Londres , Nova Iorque, Pequim ou até mesmo Sorocaba. Bom, no caso de Sorocaba não seria uma mudança de país, mas deu pra entender o espírito da coisa. A mudança foi pela mudança. Por uma identificação cultural. Foi a busca de uma satisfação pessoal (misturada com uma pitadinha de aventura). Um desejo de conquistar sonhos diferentes. Acho que é aquela gana de sagitariana que quer se encontrar se perdendo pelo mundo.

Minha primeira visita a Paris foi em 1998, logo depois do Brasil ter perdido a Copa do Mundo para os “bleus”. Estava com a minha família na Grã-Bretanha e viemos passar um dia em Paris para conhecer o Eurostar. Uma loucura. Um calor infernal. Uma superlotação de turistas que chegavam para curtir a cidade luz, misturada com os remanescentes torcedores do mega evento futebolístico. Un, deux, trois, zéro…

Paris. Imagem: Luana Ferrari (acervo pessoal/ old fashion way)

Eles fizeram até musiquinha para comemorar a vitória. Naquele tempo nem passava pela minha cabeça o quanto essa música iria me irritar. (Não, eu não ligo a mínima para futebol, mas nenhum francês se preocupa com isso. E também não se preocupa que desde 98 eles nunca mais ganharam nada e que nós somos pentacampeões. Eles seguem grudados naquele 12 de julho quando Zidane driblou o nosso fenômeno e faturou a taça para a terra de Napoleão como se a vida deles dependesse disso).

Naquele dia Paris passou longe de se tornar meu sonho de consumo. Eu achava francês uma língua feia e esquisita (e talvez ainda ache). Eu e meu irmão não nos conformávamos em uma palavra que se escreve “enfants” ser pronunciada ‘anfan’.

Achei os franceses arrogantes e esnobes – #quemnunca – (e talvez eles sejam, mas eu não acho mais). Me lembro da correria. Do calor. Das multidões e filas infindáveis. Do calor. Nem me lembro o que comemos ou se comemos. Fazia calor. Meu pai fez xixi nas calças em plena Galeria La Fayette, cerca de doze horas de distância de poder tomar banho e trocar de roupa (ponto alto do dia que se tornou, claro, uma das melhores histórias de viagem do nosso repertório).

Eu já falei que fazia calor? E mulher que anda que nem doida, de saia, no calor, fica assada. E arde. Lembro do ardor. E do calor. E, pra finalizar com mais uma pérola das viagens de família, conto que meu irmão, no auge dos seus 13 anos, entrou em uma farmácia decidido a resolver o meu problema. Apontou para mim do lado de fora do estabelecimento e disse para a moça atrás do balcão: “Minha irmã precisa de um creme pra quando a gente vai ao banheiro, faz cocô, e não se limpa direito”. Basta para perceber que os franceses não causaram grande impacto em mim e, bom, nem eu neles.

Quando Paris virou uma opção

Paris. Imagem: Luana Ferrari (acervo pessoal/ old fashion way)

Paris não era um sonho, mas confesso que passar um tempo na Europa era. Sempre fora. Fantasiava Londres. A efervescência cultural. Os belos trench coats em tardes chuvosas. Um chá com limão em um dia de primavera. Era tudo muito romântico, lindo, irreal. Digno de uma boa adolescente. O problema é que a libra não era compatível com o meu desejo de viver na terra da Rainha Elizabeth.

Talvez a minha decisão tenha sido mais minuciosa. Talvez eu tenha pesado prós e contras. Talvez eu tenha imaginado o que seria e como seria. Talvez eu tenha ido aprender francês por um impulso maior do que um filme ruim como “Recém-casados”, com o Ashton Kutcher e a Brittany Murphy. Talvez… Mas o que fincou na minha memória foi um breve café com uma amiga que disse: “Estou voltando pra Paris. Preciso me formar.” (…) “Você deveria morar em Paris. As faculdades lá são ‘de graça’. Basta você falar francês.”  

E assim foi. Passei seis anos em Paris. Seis anos colecionando memórias, amigos e diplomas. Seis anos de risos infinitos, muitas notas musicais, algumas boas lágrimas derramadas no metrô parisiense, baguettes, croissants, queijos.

Naqueles seis anos aprendi que o papel higiênico não nasce no rolinho, que a roupa não se lava sozinha, que comprar comida custa caro (e tem que cozinhar) e que fazer faxina queima várias calorias. Aprendi a dividir meu espaço (por menor que ele fosse) e aprendi que o conceito de família pode ser muito relativo.

Aprendi a declarar imposto, a controlar as finanças, a procurar emprego do qual a gente não manja nada das leis trabalhistas, procurar apartamento onde a gente não manja nada do mercado imobiliário, e a não ligar pro meu pai cada vez que algo dá errado. Aprendi que o francês é, sim, alegre, acolhedor e divertido. Aprendi a ir ao cinema sozinha, shows sozinha, sentar em um café e tomar uma coca zero sozinha, viajar sozinha. Aprendi a conhecer minhas múltiplas personalidades e a aceitar cada uma delas que ia surgindo com o passar dos anos.

Um novo ciclo

Depois dos seis anos cá, foram seis anos de volta a São Paulo. (Faço ciclos de seis, aparentemente. Deve ser meu ascendente em touro colocando um pouco de ordem no caos da mente dessa sagitariana). Seis anos que me ensinaram que a casa da gente será sempre a casa da gente, mesmo que nos sintamos um peixe fora d’água.

Foram descobertas e redescobertas que trouxeram a certeza de que somos o que somos: seres em constante evolução e aprendizado e, que vamos conosco onde quer que estejamos.

Descobri, redescobri, amei, ri, chorei, cantei e me (re)encantei com a minha adorada e tumultuada São Paulo. Isso tudo voltou pra França junto comigo. Junto com as cinco malas e o passaporte vermelho.

Vim sem casa. Sem emprego. Com sobrinha na barriga da cunhada. Com a reserva de amor dos melhores amigos que tenho. Com as economias que pude juntar. Vim pra cuidar e ser cuidada pela família que deixei aqui. Vim com a certeza de que o que importava era entrar no avião. O resto é só procurar que a gente encontra. 

Agora termina o texto e começa a jornada. E volto lá pro primeiro parágrafo. Lá, quando eu contei que estou no meu segundo round parisiense. Só para dizer que, não, eu não vim pra Paris atrás de nenhum namorado (80% das pessoas me perguntam isso). Não, eu não vim a Paris acompanhando nenhum namorado (os 20% que não acham que eu vim atrás de homem, acham que eu vim acompanhando). Afinal, nada mais normal do que uma mulher de 34 anos, que é solteira, decidir sair SOZINHA no mundo em busca de si mesma. Pode ser que a gente nunca se encontre. Mas o divertido é procurar, não é?

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Luana Ferrari
Uma paulistana com alma parisiense (ou uma parisiense com alma paulistana) no segundo round vivendo na cidade luz. As palavras são o ofício. O saxofone e a flauta seguem sendo a grande paixão. A louca da abóbora e da banana. Noveleira (para matar a saudades do Brasil). Friorenta. Nadadora (para escapar dessa vida muito pé no chão). Viajar... Albert Camus define melhor: "Não há nada tão estranho em uma terra estranha como o estranho que vem visitá-la".

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