As verdades que as pessoas não entendem sobre fazer um mochilão

Depois de perguntar para a quinta ou sexta pessoa da noite por quanto tempo ela estava viajando e ouvir pela quinta ou sexta vez “por uns meses, não tenho data pra voltar” (ou algo parecido com isso), o irlandês anunciou para o grupo com uma pontinha de ressentimento: “Eu volto pra casa para trabalhar daqui a cinco dias, e eu odeio todos vocês”.

Alguns meses atrás quando eu anunciei para a família e amigos que pediria demissão do meu emprego “estável” (já que a empresa ia bem, obrigada, e não havia previsão de cortes) e com até bastante benefícios para o meu cargo (não é tão fácil arranjar essas mordomias sendo professor), a maior parte das pessoas achou que eu estava ficando maluca, completamente louca, ainda mais com o país passando por uma crise dessas. Quer saber, não dei ouvidos e fiz as malas mesmo assim.

Só que aí você chega na Ásia e descobre que se você é mesmo louca, o que mais tem no mundo é maluco igualzinho a você. Pelos albergues do Sudeste Asiático, eu não sou a estranha que chutou o balde, eu sou só mais uma que percebeu que dava pra dar um pause na vida normal e passar um tempo viajando. Tem professor que cansou dos alunos, médico que cansou dos pacientes, marqueteiro que cansou dos clientes, e toda e qualquer profissão que você conseguir imaginar.

Somos praticamente um clubinho. Um clubinho de gente do mundo todo e que desperta inveja e admiração na galera que só tem no máximo duas semanas de férias e mesmo assim acorda de madrugada para responder e-mails profissionais enquanto está de folga. Enquanto eles já estão pensando em como vai ser difícil voltar à rotina daqui a uns dias, a gente só tem que decidir qual o próximo destino e torcer para ele ser tão bom quanto o atual (ou melhor).

Mas nem tudo é glamour no clubinho. Aqui a gente anda de trem para não ter que pegar um táxi. A gente investe horas de pesquisa, pega dois ônibus e uma barca, mas não paga pelo tour privado. A gente come bem, só que no restaurante baratinho ou na barraquinha de rua onde o povo que trabalha no hotel foi buscar o almoço deles. A gente pega o trem noturno que leva 12 horas para chegar na outro lugar para não pagar mais caro no avião e ainda economizar uma noite de hospedagem. A gente faz amizade com a pessoa só para rachar um quarto na próxima cidade onde não existe hostel.

E apesar de você conhecer um membro do clubinho num dia e já ter que dar tchau no outro, mais cedo ou mais tarde, todo mundo acaba se esbarrando por aí, porque afinal tá todo mundo indo pra Chiang Mai para o festival das lanternas, ou então fazendo uma parada estratégica em Krabi antes de escolher uma ilha para chamar de sua por uns dias. E se alguém te falar muito bem de um lugar, o povo do clubinho pode mudar os planos para ir lá dar uma conferida, porque ninguém está com pressa de nada e incluir mais uma cidade no roteiro não vai fazer diferença alguma.

E como não temos nada em comum com o clube da luta, eu posso escrever esse texto e torcer para que as pessoas entendam que o clubinho está aberto para todo mundo, e que não precisa ganhar na loteria para entrar nele. Só precisa estar disposto a deixar alguns luxos de lado para desbravar o mundo.

Texto publicado originalmente no blog da autora.

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Analu Bento
Rainha da contradição. Adora adjetivos que começam com pseudo. Viciada em cinema e seriados. Em constante procura por bandas que ninguém mais conhece. Bióloga que virou English teacher. Estranhamente obcecada por caveiras. Mochileira por vocação. Blogueira de ocasião. Carioca da clara. No momento, tentando escrever para o M pelo Mundo e Crônicas de uma Pessoa Comum, enquanto faz o possível para sobreviver em Pequim sem falar chinês. Analu Bento, muito prazer.

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2 Comments

  1. Olá, Patrícia! Nós, ex-biólogos estamos mesmo por todos os lugares, né?kkkk
    Mas então, espero que o texto tenha te ajudado a amadurecer a ideia de “chutar o balde”, é super possível, vai por mim! 😉
    Tenho um blog pessoal sim, mas ele é mais sobre as impressões que eu tenho sobre os lugares e as experiências que eu tenho passado, e não de dicas de viagem, mas se quiser dar uma olhada, fique à vontade (www.cronicasdeumapessoacomum.wordpress.com).
    E respondendo a sua pergunta, eu estive no sul da Tailândia em dezembro e não tive problemas com hostels, chegava direto sem reserva ou reservava um dia antes pela internet. Só fiquei do lado de Krabi, mas ouvi falar muito bem de Koh Tao do outro lado.
    Boa sorte na sua viagem!

  2. Oi Ana, tudo bem? Não sei como vim parar nesse site, pois meu foco hoje era outro, só sei que li sei artigo falando da Tailândia (estou indo para la dia 6 de maio) e me identifiquei com coisas que não quero fazer, ai para minha surpresa no final do artigo estava ex bióloga…me identifiquei mais ainda pois também tenho esse status :)…fui procurar mais artigos seus e infelizmente so achei mais esse sobre fazer mochilao, o que foi de encontro a minha ida a tailandia, pois apesar de ja ter feito muitas viagens sozinhas venho refletindo em chutar o balde por um, dois ou sei la quantos anos…embora não seja exatamente nessa viagem ainda,mas quero que isso aconteça ate o final do ano(quero viver não mais o que pra mim é sobrevier e ficar no emprego somente por ser estável)…Enfim gostaria de saber se você tem algum outro canal e também dicas da Tailandia, pois estou indo sozinha de mochilao, ficarei 20 dias, onde quero ficar 4 dias nas ilhas do sul mas do lado oposto de phi phi para depois passa 7 dias em phi phi/kreb (é tranquilo conseguir hostel barato na hora ou melhor eu ja reservar?) e o resto bangkok e arredores.

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