Mari Campos: “se o seu medo é solidão, a gente só fica sozinho em solo travel se quiser”

Imagem: Mari Campos/ acervo pessoal

Mari Campos é jornalista, autora do livro “Sozinha Mundo Afora”, criadora do blog MariCampos.com e uma viajante expert. Já conheceu mais de 50 países, já viajou muito sozinha e também a trabalho. Começou seu blog em 2010, mas antes disso já atuava como jornalista de turismo. Na coluna “Minas Viajantes que Escrevem”, desta semana, conversamos com a Mari para saber mais sobre seu livros, suas dicas de viagem e um pouco mais sobre seu blog.

M pelo Mundo – Mari, você publicou o livro “Sozinha Mundo Afora”. Você poderia falar um pouco sobre como surgiu a ideia do livro e o que podemos encontrar nele?

Imagem: divulgação

Mari Campos – Quando ele foi publicado, em 2010, eu já escrevia há alguns anos sobre viajar sozinha e já tinha ido sozinha para vários países diferentes. Escrevi o livro como uma sugestão da própria editora, que já tinha publicado meus dois livros anteriores (que também tinham como tema central “viagens”).

O livro é um compilado de dicas, baseadas nas minhas experiências em anos e anos viajando sozinha por todos os continentes, para quem quer ganhar o mundo em sua própria companhia pela primeira vez, mas ainda tem receios. São abordados diversos tópicos, desde segurança e vida noturna à solidão e relacionamentos. No começo de cada capítulo tem também o depoimento de uma viajante diferente – todas brasileiras, mas mulheres de diferentes estilos, profissões, classes sociais, estado civil e faixas etárias, contando como foi viajar sozinha pela primeira vez. 

M pelo Mundo – Já passou por algum inconveniente por ser mulher? Caso sim, como superou isso?

Mari CamposViajando passo pelos mesmos inconvenientes por ser mulher que passo na minha própria cidade no Brasil. Aqueles aos quais já meio que nos acostumamos desde adolescentes: os assédios do dia-a-dia. Isso tem muito, sempre, independente do destino.

Na primeira vez no Marrocos, por exemplo, me incomodou pelo excesso e pela insistência. Mas nunca foi nada além disso e com o tempo eu aprendi como lidar do melhor jeito, sem me estressar. E é balela achar que “nossa, os árabes!”, quando no Brasil a gente também ouve esse monte de grosserias no ponto do ônibus, em frente à construção, ao dobrar a esquina.

Eu sempre zelei muito (muito mesmo) por segurança em todas as minhas viagens, sejam elas solo ou acompanhada, a trabalho ou a lazer. Eu costumo dizer que faço gerência de risco rs, sou meio freak com isso. Não dou mole, não fico dando informação pessoal para desconhecidos; sequer fico propagandeando que estou viajando sozinha.

Então nunca tive um perrengue sério por ser uma mulher viajando sozinha. Mesmo em países árabes mais conservadores (já estive sozinha em vários), sempre pesquisei muito, li muito antes de embarcar sobre o destino/costumes/causos para entender como me portar ali e não tive mesmo nenhum problema. Claro que existem exceções, mas ainda acho que a informação (em excesso, inclusive) é sempre o melhor remédio. 

M pelo Mundo – Se você pudesse dar apenas um conselho para mulheres que querem viajar sozinha – qual seria?

Mari Campos – Seria vá! Vá sozinha, sim! Não tem como saber se você gosta ou não de viajar sozinha se você não tentar. Eu canso de dizer: se o seu medo é solidão, a gente só fica sozinho em solo travel se quiser. Fiz amigos maravilhosos nas minhas viagens solo e encontrei ajuda e gente bacana pelo caminho sempre que precisei.

Acho a liberdade de viajar sozinho uma sensação maravilhosa! A gente aprende a lidar melhor com a gente mesmo e com o outro todo dia. Só nunca recomendo fazer a loka: tem que ler, pesquisar, planejar, para ir tranquila. E cuidar da segurança sempre – não pode dar bobeira só porque está mega relax por estar de férias.

 Eu sempre recomendo começar em algum destino com o qual você de alguma maneira se identifique e, se possível, que a barreira cultural e de idioma não te atrapalhe. Se você não fala inglês, por exemplo, tem mais chances de se comunicar melhor e ter melhores experiências num país como Portugal. Ou ainda com idioma mais próximo ao nosso, como Argentina, Chile, Peru ou Espanha. Mas é uma questão de preferências: se o seu sonho é ir para a Austrália, vá para a Austrália! Eu jamais diria para uma mulher não ir sozinha para destino nenhum no qual já estive.  

M pelo Mundo – Em quantos países você já esteve? Qual considera mais seguro para mulheres viajantes?

Mari Campos – Eu parei de contar países quando cheguei ao 50 porque acho que as pessoas supervalorizam essa coisa de contar países. Odeio ver gente que “conta” país quando somente pisou por dois ou três dias numa cidade específica. Sorry, mas ela não conheceu aquele país… Sou mesmo bem cri-cri com isso. Outra coisa com a qual sou cri-cri é essa coisa de rankear países seguros para mulheres.

Não acredito muito nisso; a gente está exposta a fatalidades até ao atravessar a rua em frente à nossa casa. Muitas mulheres têm preconceitos com países árabes e a Jordânia, por exemplo, eu achei muito mais segura no geral que outros destinos ocidentais. Até porque, convenhamos, como brasileiras, e salvo algumas exceções mais óbvias e nações em conflito, não é assim tão fácil achar um país menos seguro que o Brasil.

O que eu acho “seguro” para quem viaja sozinho pela primeira vez é escolher um destino com boa infra turística, porque viajar assim fica muito mais fácil.  Como disse na pergunta anterior, jamais diria para uma mulher não ir sozinha para destino nenhum no qual já estive.  

Maricampos.com, turismo de luxo e viagem solo 

M pelo Mundo – Você poderia contar a história do seu blog e para qual público ele é destinado?

Mari Campos – O MariCampos.com fez 10 anos em abril passado. Sou jornalista formada há bem mais tempo que isso e sempre trabalhei na área. Como sempre viajei muito, desde muito antes de me formar em jornalismo, acabou sendo meio natural eu me especializar no jornalismo de viagens quando decidi virar freelancer full time. Trabalho há mais de 13 anos exclusivamente como jornalista freelancer de viagem e lifestyle de luxo para diversos meios de comunicação em oito países diferentes.        

Quando eu criei o MariCampos.com, em 2007, ter um blog de viagem ainda não era muito comum e a gente nem sabia direito como faze-lo; era um cenário completamente diferente. Eu resolvi cria-lo porque, como já trabalhava exclusivamente com este tipo de relato (mas para impressos) há alguns anos, queria um espaço só meu, onde eu pudesse escrever literalmente o que quisesse, livremente, sem ninguém me editando ou “podando” minhas opiniões sobre destinos e hotéis.

E é bem nessa linha que ele continua até hoje. Hoje tenho dois públicos distintos no blog: viajantes solo (mais mulheres, mas também muitos homens) e viajantes upscale/turismo de luxo (muitos deles, aliás, estão lá desde o começo, já que essa sempre foi a pegada do blog, combinando com o meu próprio jeito de viajar).  O que eu faço até hoje por ali é contar o que fiz nas minhas viagens; continua sendo um grande diário, com textos bem pessoais. Faço reviews dos hotéis em que realmente me hospedei, conto o que comi de bom em que lugar, quais os bairros/passeios/atrações que mais gostei e porque, como fiz pra chegar, essas coisas. Ainda é bem como se eu estivesse contando minhas viagens para amigos (e alguns leitores do blog viraram mesmo amigos de verdade ao longo dos anos). 

M pelo Mundo – Mari, você escreve sobre turismo de luxo. É um segmento muito procurado no Brasil?

Mari Campos – É sim. E cada vez mais. No Brasil, assim como no mundo inteiro, o mercado de luxo em viagens não para de crescer. Cresce em número de clientes e cresce principalmente em gastos destes viajantes. Aparecem novas agências especializadas, novos consultores de viagem, novos hotelaços de luxo o tempo todo. No mundo todo, foi o setor menos afetado com as crises econômicas – e aqui no Brasil não tem sido diferente. E é um setor em constante evolução: se antigamente os baby boomers eram o grande foco do mercado de luxo, hoje os próprios millennials já representam uma fatia importantíssima deste mercado.

M pelo Mundo – No blog também há dicas sobre viajar sozinha. Como foi sua primeira experiência?

Mari Campos – Tem esse relato lá no blog e também no meu livro. Minha primeira experiência foi tão boa quanto todas as demais! Pode ser que eu tenha dado sorte, mas meu maior medo na minha primeira solo trip foi encarar a decolagem do avião sozinha rs. A verdade é que eu viajo muito desde sempre; então quando viajei sozinha pela primeira vez eu já tinha viajado muito, por muitos países diferentes – então não tive receios nem nada. Eu já era casada (casei bem novinha, logo que me formei); ele não podia tirar férias daquela vez junto comigo e eu não pensei duas vezes.

Para mim, desde pequena, viajar sempre foi combustível de vida. Desde que comecei a trabalhar, ainda no segundo ano da faculdade, nunca cogitei a possibilidade de tirar férias e não viajar. Então foi bem isso: se ele não podia ir comigo, eu iria sozinha porque não concebia a ideia de passar minhas férias sem viajar. Foi algo bem instintivo e natural, nada super planejado. Mas eu fiz algo que eu ainda recomendo para quem pode: minha primeira viagem solo foi para Buenos Aires, que era um destino que eu já conhecia muito bem.

Viajar sozinha pela primeira vez para um destino conhecido ou para um destino cujo idioma se fale/se compreenda bem facilita muito. Hoje, viajo sozinha para qualquer lugar, inclusive muitos países nos quais nunca estive antes. Mas ainda acho que de certa maneira foi importante – para a segurança que eu tenho ao viajar sozinha desde então – que a primeira vez tenha sido num destino conhecido.

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