A taxista muçulmana e o machismo na Indonésia

A taxista. Imagem: Andrezza Nascimento / acervo pessoal

Na minha última viagem, que foi ao sudeste asiático, eu presenciei algumas situações que meu coração de mulher sentiu de uma forma pouco agradável. Eu sabia que deveria escrever sobre isso, mas precisava deixar passar uns dias para não colocar o calor da emoção nas palavras e tornar o raciocínio tendencioso ou equivocado. Sem discutir ferrenhamente sobre religião, mesmo ela tendo influência no que quero expor, vou descrever duas situações que ocorreram durante a viagem à Indonésia.

O machismo na Indonésia

Estava eu e o meu namorado saindo de um shopping em Yogyakarta, na Ilha Java, e eis que ao descer a escada rolante e ir em direção ao estacionamento eu enxergo a seguinte sinalização:

Uma placa, rosa, indicativa de vagas especiais para as mulheres, que tinha o desenho de uma mulher com um celular na mão (não entendi muito bem a alusão da figura, mas enfim). E, detalhe, o espaço era em frente à saída. Presumi que aquilo seria alguma forma de “ajudar a motorista a não precisar manobrar muito”. Aquele clássico pensamento machista, misógino e retrógrado de que o sexo feminino não dirige bem.

Aqui eu destaco a questão da religião, que inicialmente comentei que não me debruçaria sobre. Essa região indonésia é predominantemente muçulmana. Muitas, mas muitas mulheres mesmo, usam as vestimentas obrigatórias pelo islamismo, o que as tornam facilmente identificáveis para os não-islâmicos (eu), ou podemos também dizer, para os ocidentais (mesmo que também hajam muçulmanos nesses países).

Coincidência ou não, em outras partes da Indonésia, como Bali, por exemplo, que tem como religião o budismo e o hinduísmo, não tive esse tipo de experiência. Seria ignorância minha achar que a religião define o grau de preconceito? Não sei. Me digam vocês.

É inegável, no entanto, não levarmos em consideração que na cultura muçulmana exista uma exaltação da autoridade patriarcal em prejuízo à justiça de gênero. Mesmo frisando que não vou escrever sobre aspectos religiosos, é praticamente impossível falar sobre a questão “machismo”, sem fazer a ligação com o islamismo no país.

Lá, conforme eu questionei a algumas pessoas, as mulheres islâmicas devem se vestir adequadamente, devem obedecer seu marido, devem saber cozinhar e cuidar da casa e são incentivadas ao casamento desde pequenas. Para se ter uma ideia do que fica enraizado na cultura e na mentalidade do povo, a primeira questão que faziam para mim e para o Roman era se somos casados. Já a segunda, quase automaticamente após nossa resposta, era se tínhamos filhos (ou se gostaríamos de ter em breve). Como se o meu papel como mulher fosse apenas o de reprodutora, já que raríssimas vezes questionaram a minha profissão.

Fazendo uma ligação com o que antes eu estava dizendo, sobre a placa, as mulheres usam sim as motos, mas dirigir um carro, isso já é outra história. Trabalhar como taxista então, nossa, isso é assunto para o segundo item que queria contar para vocês.

A taxista muçulmana

Na nossa despedida do país, ainda em Yogyakarta, pedimos à recepção do hotel em que estávamos para chamar um táxi. Na realidade foi para a recepcionista pedir um motorista nesses aplicativos tipo Uber. Quando o nosso veículo chegou, para nossa surpresa, era uma mulher. Com o seu tradicional véu na cabeça.

Eu fiz uma cara de felicidade, pois na hora pensei: “Poxa, que legal uma mulher trabalhando nisso!”. Afinal, só tínhamos visto homens.  A menina do hotel deve ter notado minha cara e logo se desculpou: “Vocês se importam de ser mulher? Nem perguntei antes!”. Eu e o Roman respondemos ao mesmo tempo: “Claro que não!!”. E eu segui: “Para mim, é ainda melhor!”.

Entramos no carro e ela falava bem pouco inglês. Eu queria muito conversar com ela sobre todas essas questões que estavam na minha cabeça, mas a barreira do idioma apenas permitiu que ela dissesse: “Ainda somos pouquíssimas trabalhando como taxistas por aqui. É um pouco complicado sim!”.

Ela dirigia maravilhosamente bem, sem diferença alguma de qualquer pessoa que preze pela segurança no trânsito, algo que não poderia ser pré-julgado pelo gênero. Mas eu a observava e sentia que ela estava super compenetrada, verificando diversas vezes os lados das ruas para finalmente dobrar com o carro. Imaginei que isso seria aquelas coisas que ficam no subconsciente, do tipo: se você fizer qualquer “barbeiragem”, vão gritar (seja na língua que for): “Tinha que ser mulher mesmo!”.

Dava para sentir que ela não queria isso de jeito nenhum. Para ela, a cobrança por guiar de forma exemplar deve ser ainda maior. Fiquei com aquilo matutando na cabeça, e queria poder falar TANTAS coisas para ela. Elogiar pela bravura dela de buscar um trabalho digno, honesto e, na sua brutal maioria, executado por homens. Que mesmo tendo que ouvir as pessoas questionando diariamente se é um problema ou não ter uma mulher dirigindo, segue na luta, dia após dia, na esperança que mais delas possam entrar no ramo e as pessoas não mais se “incomodem” se é homem ou mulher guiando o carro.

Infelizmente, mesmo tentando, vi que ela não entendia minhas palavras. Tive que parar. Só consegui dizer “One day, better”  (Um dia, melhor)  e fazer sinal com o dedo polegar. Ela sorriu. E foi um daqueles sorrisos que dizem mil palavras ao mesmo tempo e mostram que a pessoa não só entendeu, mas concordou.

Não quero encerrar minha reflexão de forma poética ou romantizada, quero deixar claro que, em qualquer lugar do mundo, o preconceito contra a mulher existe. Que somos avaliadas com antecedência pelo nosso gênero, sim! Que existe um patriarcado católico e também muçulmano, sim! 

Feminismo muçulmano

Foi escrevendo esse texto que pesquisei sobre feminismo no meio muçulmano e descobri um nome brilhante: Amina Wadud. De origem negra e pobre, a Ph.D e fundadora do “Sisters in Islam”, coloca-se como pró-feminista, mas faz antagonia ao feminismo por defender a não dominação da presença de mulheres brancas e laicas.

Ela defende uma “leitura feminista” do Alcorão, que para ela está longe de ser um texto fundamentalmente machista. Em sua opinião, a leitura patriarcal do livro sagrado do Islã sustentaria formas de dominação que o próprio Alcorão busca combater em relação ao estabelecimento de justiça; a de gênero, inclusive.

Viajar não é somente cultura, é também reflexão!

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Andrezza Nascimento
Relações públicas, mestre em cultura e comunicação e criadora do blog ZZ ando por aí.

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