Joana da Silva largou tudo e foi viajar sozinha

Joana e a sua inseparável mochila / Acervo pessoal

Tomar a decisão de deixar para trás a rotina e se aventurar no mundo, com apenas uma mochila nas costas, não é fácil. No entanto, todas as pessoas que fizeram isso e com quem eu tive a oportunidade de conversar não se mostraram arrependidas em momento algum. A Joana da Silva é uma dessas pessoas que se jogaram no mundo sem passagem de volta e topou falar um pouco mais sobre essa experiência.

M pelo Mundo – Como era a sua vida antes da viagem?

Joana: Eu morava na casa da minha mãe em um bairro de classe média em Salvador. Tinha uma vida confortável, era a “louca” por baladas (não que isso tenha passado!), academia, praias e adorava paquerar entre um namoro e outro! Ah, e eu também gostava muito de viajar. As férias sempre tiveram programação certa: VIAGEM! Nessa época eu viajava todos os anos para Europa e Estados Unidos para visitar amigos. Nos feriados prolongados aproveitava para viajar por esse Brasil.

Por 8 anos trabalhei em uma empresa multinacional, onde comecei como estagiária e me tornei executiva em Recursos Humanos. Graduei em Administração de Empresas e concluí o MBA em Psicologia Organizacional. Essa foi a minha principal experiência profissional até o momento.

M pelo Mundo – O que te levou a tomar a decisão de pôr uma mochila nas costas e cair no mundo?

Joana –  No final de 2015 decidi pedir demissão da empresa em que estava trabalhando por 8 anos. O ciclo natural para uma pessoa de classe média estava feito: faculdade, MBA, emprego em uma multinacional, vida confortável na casa dos pais, carro novo e uma viagem para o exterior por ano.

Aos poucos comecei a me questionar sobre o que eu queria com tudo isso aos 29 anos (idade que tinha na época). Então, percebi que precisava fazer algo diferente, que eu não sabia exatamente o que era. Depois de pedir demissão morei seis meses nos Estados Unidos, estudei inglês para sair do básico e de quebra fui aceita em um mestrado em Recursos Humanos por lá. Voltei para o Brasil, tive a solicitação do visto de estudante para o mestrado negado e depois o meu de turista cancelado (é uma longa história).

Um mês depois de voltar ao Brasil e passar por todos esses problemas consegui um emprego nas Olimpíadas do Rio, onde trabalhei por 3 meses. Entre o fim do trabalho nas Olimpíadas e o começo da viagem de volta ao mundo foram exatamente 3 meses. Esse período foi muito importante e decisivo. Depois de exaustivamente pensar sobre o que eu iria fazer da vida (a terapia ajudou a passar por esse momento sem enlouquecer), decidi viajar. Em um mês vendi tudo que tinha (carro, cama, roupas, eletrônicos, acessórios, etc), fiz as contas, comprei a passagem de saída do Brasil e comecei a viagem no Uruguai em 17 de novembro de 2016.

Eu ainda não fazia ideia de onde estava me metendo. Tinha escutado pela primeira vez na minha vida histórias de pessoas que viajavam pelo mundo. Pela falta de experiência e de informação achei que a grana só daria para viajar por uns 5 meses.

M pelo Mundo – Você tinha alguma experiência em viajar sozinha antes dessa viagem?

Joana –Não. As minhas viagens de férias para o exterior ou no Brasil nos feriados prolongados, sempre foram acompanhadas de amigos. Eu nem sabia o que era ser mochileira. Era um mundo totalmente desconhecido. Eu só sabia de baladas, mundo business, praias e recursos humanos. Viajar para mim era Europa ou Estados Unidos e para lugares onde eu conhecesse alguém.

Se aventurando nos trekkings / Acervo pessoal

M pelo Mundo – Até agora, há quanto tempo você já está na estrada e por onde já passou?

Joana – Em 17 de Abril de 2018, um mês depois do meu aniversário, completei 17 meses na estrada. Já viu que rolou um orgulho, né? Até o momento já visitei 20 países. Provavelmente quando essa entrevista for publicada eu já estarei visitando o 21º país. Chego na China em alguns dias. Comecei a viagem pela América do Sul: Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Panamá, México e Cuba. Depois vim para Ásia: Tailândia, Mianmar, Malásia, Brunei, Malásia, Bornéu, Singapura , Vietnam, Índia, Nepal, Filipinas, Coréia do Sul e agora China.

M pelo Mundo – Quais são os planos para o futuro do roteiro? Você tem alguma ideia de quanto tempo a viagem ainda deve durar?

Joana – Em Abril começo a viagem pela China, depois sigo pela rota do transiberiano para Mongólia e Russia, onde chego para a Copa do Mundo. Hoje não consigo ser específica sobre quanto tempo a viagem vai durar. Depende muito de como me sinto. Enquanto a viagem fizer sentido, trouxer satisfação e plenitude como agora, sigo viajando até o dinheiro permitir. Quando eu sentir que é hora de mudar de degrau, ou de fase, mudarei sem pensar duas vezes. Desta vez não precisarei de 3 meses para pensar e tomar decisão.

M pelo Mundo – Como você faz para se manter na estrada?

Joana – Administrando meu dinheiro. Morar na casa da minha mãe até os 30 anos, austeridade, e disciplina nos gastos, enquanto trabalhava, permitiu que eu fizesse um pé de meia. Além disso, a venda de todas as minhas coisas e do carro ajudaram a fazer uma poupancinha para a viagem. Sigo viajando com essa grana. Já consegui alguns trabalhos curtos e pontuais durante a viagem que ajudaram a fazer um dinheiro também. Recentemente me tornei freelancer, vendendo artigos para um blog de viagens. E também começaram a surgir alguns trabalhos por fora para fazer posts em páginas do Facebook e para construir websites que têm ajudado a levantar grana.

O dinheiro que tenho ganhado desses pequenos trabalhos não é suficiente para me manter, mas eu também trabalho em troca de hospedagem e comida em alguns países. Tudo isso evita que eu gaste o dinheiro das minhas economias. E claro que levo uma vida simples totalmente low budget, que permite por exemplo ter despesas mensais menores do que se eu estivesse morando no Brasil.

M pelo Mundo – Você sentiu alguma dificuldade durante esse tempo por ser uma mulher e estar viajando sozinha?

Joana – Não. Pelo contrário, as pessoas costumam ser mais solícitas com as mulheres viajando sozinhas. No geral, mulheres transmitem mais confiança e segurança para as pessoas desconhecidas do que os homens. Muitos anjos cruzaram o meu caminho nesse um ano e meio de viagem e me ajudaram de todas as formas: com dinheiro, presentes, hospedagem, comida de graça etc. Essas pessoas entraram na minha vida através do Couchsurfing, indicação de amigo de amigo e de outras diversas formas aleatórias. Em muitas situações as ajudas vieram mais facilmente pelo fato de eu ser mulher.

Registro feito durante a passagem da Joana pela India / Acervo pessoal

Um exemplo interessante: viajei por dois meses pela Índia e Nepal. E a Índia foi um dos poucos países onde eu fui super bem tratada, cuidada e respeitada. E mais, tive a oportunidade frequentar ambientes familiares bem diferentes um dos outros. A forma como eu era tratada sendo uma convidada ocidental, mochileira, mulher e viajando sozinha obviamente em muitos casos era bem diferente do tratamento que as mulheres da casa recebiam. Em todos os casos eu era admirada pela minha atitude e coragem, mas isso não significava que se as mulheres de algumas daquelas famílias seguissem meus passos teriam a mesma admiração.

E em relação à segurança, os cuidados são os mesmos que eu tinha no Brasil. Porém, vou confessar que atualmente tenho menos paranoias. Pelos países que passei tenho conseguido exercer mais o direito de ir e vir livremente pelas ruas, sem medo ou preocupação de acontecer algo, do que quando morava no Brasil. Então, não tive até o momento nenhum situação grave. Já fui desrespeitada? Sim! Tem muita gente ignorante e mal-educada em todos os lugares. Mas, não pelo fato de ser mulher.

M pelo Mundo – Você tem algum conselho para dar a alguém pensando em fazer algo similar?

Joana – Meu conselho é o seguinte: Não adie os seus planos. E aproveito para dar algumas dicas:

  • Se a desculpa é grana, planeje a viajem para caber no seu bolso. Além das fronteiras brasileiras, existem dezenas de países que possuem custo de vida e viagem pelo menos 50% menor que do Brasil. Talvez essa seja a oportunidade de explorá-los e conhecer novas culturas.
  • Se a desculpa é o idioma, lembre-se que há dezenas de países onde a população não fala nenhum segundo idioma. Então, mesmo que você fale português, inglês e espanhol fluentemente, não irá ajudar em muita coisa.
  • Família e amigos vão te chamar de louca no início, poucos vão te incentivar. Preste atenção apenas nas pessoas que estão te encorajando a seguir em frente. Os demais você só agradece pela preocupação e pelos conselhos.
  • E para finalizar, lembrem-se, ficamos mais fortes quando aprendemos a seguir em frente carregando todos os medos e inseguranças sobre o futuro.

Para acompanhar as aventuras da Joana por aí e saber um pouquinho mais sobre cada lugar por onde ela passa, você pode pode segui-la através do Instagram ou do Facebook.

 

Faça um comentário
Analu Bento
Rainha da contradição. Adora adjetivos que começam com pseudo. Viciada em cinema e seriados. Em constante procura por bandas que ninguém mais conhece. Bióloga que virou English teacher. Estranhamente obcecada por caveiras. Mochileira por vocação. Blogueira de ocasião. Carioca da clara. No momento, tentando escrever para o M pelo Mundo e Crônicas de uma Pessoa Comum, enquanto faz o possível para sobreviver em Pequim sem falar chinês. Analu Bento, muito prazer.

Leia também:

Aviso

A reprodução total ou parcial do conteúdo publicado no M pelo Mundo, sem a autorização do site, é proibida pela Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.