A (in)decisão de viajar sozinha

Imagem: Pexels

Há cerca de um ano atrás, vivi certamente as melhores e mais enriquecedoras experiências da minha vida durante uma viagem que durou aproximadamente sete meses e abarcou um intercâmbio acadêmico, em Portugal, e um mochilão, por alguns países da Europa.

Fiz tudo sozinha: desde a minha inscrição no programa de intercâmbio, ainda no Brasil, até minha ida ao aeroporto para pegar o voo de volta ao Brasil. É claro que não estive sozinha por todo esse tempo, mas estive em grande parte dele e isso foi o que tornou a minha jornada tão maravilhosa. Agora, transformo minhas experiências em um breve relato na tentativa de conseguir inspirar mais mulheres a tomarem essa decisão que, com certeza, as transformará.  

Tomar essa decisão não foi tão difícil para mim,
 mas pode ser para outras mulheres.

Não sei se foi por inspiração da minha mãe, certamente a mulher que mais me ensinou sobre a vida e sobre a liberdade ou, simplesmente, por alguns traços da minha própria personalidade, mas, desde muito cedo, sempre gostei de ser livre, e só. Sempre fui uma grande apreciadora dos momentos de solidão, fosse no meu quarto olhando para o teto, fosse em uma sala de cinema assistindo a um filme ou em um passeio pela pracinha do bairro, sempre me dei por satisfeita com a minha própria companhia. Cresci assim, me fiz assim, sou assim: independente.

Para mim, sempre foi fácil e até natural tomar decisões sozinha. Minha mãe sempre me apoiou e os amigos e outras pessoas que foram surgindo na minha vida, até me questionavam, mas em algum ponto passavam a aceitar minha natureza livre e, por muitas vezes, solitária.

Dessa forma, a partir do momento que tive a certeza concreta de que iria mesmo viajar sozinha, fui muito apoiada. Contudo, enquanto mulher em uma sociedade essencialmente machista, em que o tempo todo somos levadas a abandonar nossos sonhos e vontades porque “não é seguro”, “não é coisa de mulher”, “você não vai conseguir” e tantos outros desestímulos que somos habituadas a ouvir, sei que essa decisão pode ser tarefa muito árdua.

Mas, não desanime. Converse com amigas ou outras pessoas que te ouçam e te apoiem, leia textos de mulheres que passaram pela mesma situação, mas, acima de tudo, se escute e encontre força em si mesma: ela está em todas nós, nós só precisamos encontrá-la.

E o que fica para trás?

 Decisão tomada, alguns pensamentos e sentimentos nos fazem cambalear: e as pessoas que vão ficar para trás? Família? Amigos? E a minha casa? E as minhas coisas? E o medo? E a saudade? Você está lá, vivendo suas últimas semanas em meio a tudo que lhe é familiar e, então, essas perguntas se passam repetidamente pela sua cabeça. Será que eu vou dar conta? Será que eu vou querer voltar? Será que eu vou conseguir viver sem tudo isso? Será que eu vou ser feliz?

Apesar disso, eu sempre me mantive firme por acreditar eu estava fazendo exatamente o que queria fazer. E assim foi até o que meu embarque: constantes pensamentos de dúvida e incerteza. Mas, até hoje me lembro da sensação indescritível que foi ver todo (o) mundo que eu conhecia até aquele momento ficando para trás no momento em que cruzei o portão de embarque. Sozinha, eu estava indo em direção ao desconhecido e isso foi o que sempre me motivou a viajar: desbravar o novo.

Levei meses para começar a sentir saudades. Primeiro, porque eram tantas experiências novas, tantas coisas inusitadas acontecendo em tão pouco tempo – ao passo que dentro de mim as coisas também se transformavam no mesmo ritmo – que mal sobrava tempo para pensar na saudade.

Segundo, porque, acreditem: a tecnologia é uma grande aliada. Mesmo eu, que não sou uma grande fã de ligações telefônicas ou do Skype, senti que essas ferramentas me fizeram estar próxima o suficiente das pessoas que me faziam falta. Então, não se desespere! A internet realmente faz a distância parecer menor do que ela de fato é.

Deixar tudo que nos é familiar para trás pode ser difícil e até mesmo, doloroso. Mas é exatamente nesse momento em que saímos da nossa zona de conforto ao encontro do desconhecido que passamos a conviver mais conosco mesmas e a conhecer não apenas novos lugares e pessoas no mundo, mas novos mundos de nós mesmas.

Mergulhe de cabeça em direção ao mundo, mas não se esqueça de mergulhar também em si mesma: só assim você vai sentir toda a beleza de cruzar fronteiras sozinha e, do outro lado, encontrar pessoas e lugares que vão tornar ainda mais incrível a sua jornada consigo mesma.

           

           

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Bruna Fante
Desde que descobriu o significado de ser sagitariana nunca deixou de citar essa informação astrológica ao se descrever, pelo simples fato de nela caberem duas palavras que tanto dizem sobre sua alma: liberdade e viagem. Recentemente, atravessou quase meio país até o centro da América Latina para (tentar) passar adiante, através da educação, seu ofício de formação e de paixão: as Letras. Agora, tenta se equilibrar na corda bamba que unem os desafios da sua rotina profissional e o seu propósito: deixar um pouco de si e levar um pouco de cada canto deste vasto mundo.

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