Faz sol na América do Sul e bate lá meu coração

Imagem: Mariana Sales (acervo pessoal)

Era o mês de abril, mais especificamente, uma quarta-feira, dia 12 de 2017. Eu saía da minha cidade natal, Soledade, no interior da Paraíba, para fazer uma viagem de mais de um mês pelas estradas do Brasil.

O ano anterior a este, havia sido bem doído para mim. Saí da casa dos pais e fui morar sozinha pela primeira vez. Também terminei um namoro de dois anos com um rapaz, que foi o meu primeiro namorado. Eu me encontrava num daqueles momentos de transição e eu, como boa taurina que sou, não estava lidando nada bem com as mudanças. A virada do ano aconteceu e o fato é que demorou um tempo, mas chorei minhas dores e tentei viver os momentos que estavam ali para mim.

Imagem: Mariana Sales (acervo pessoal)

Entrando numa nova fase de se permitir, eu fui me descobrindo, me percebendo e aquela vontade de pegar a estrada começou a pulsar em minhas veias. Em março, tudo ainda desmoronava, mas era preciso agir. Comprei as passagens sem pensar duas vezes. O destino: São Paulo, capital.

No dia 12, eu estava seguindo nas estradas que dividiam o estado da Paraíba e de Pernambuco, num Fiat Uno branco, carro de um alternativo, que tocava Roberto Carlos. A chegada em Pernambuco tinha alguns propósitos. O primeiro, era a participar da Comic Con Experience, para conhecer quadrinistas e também mostrar singelamente o meu trabalho como ilustradora e autora; o outro motivo era que meu voo para São Paulo saía de lá, do aeroporto internacional, no dia 18.

Entre as idas e vindas do Centro de Convenções de Olinda para o apartamento de Dominique, a chuva molhava meus dias e à noite ela se transformava em vapor que derretia o Recife. Dominique foi a primeira amiga que fiz durante a viagem. Ela foi simpática, fez chá de gengibre com alho para mim e ainda andamos de bicicleta pela cidade. Dominique ia confortavelmente no quadro enquanto eu pedalava até o Instituto Brennand.

Sobre mudanças

No dia que antecedia a minha viagem a São Paulo, eu tive crises de ansiedade, e além disso, fui bombardeada por mensagens do passado que muito me atormentaram. Fiquei nervosa, andei pelos quatro cantos do apartamento, fumei mil cigarros. Eu não conseguia entender porque estava fazendo aquilo, porque estava fazendo essa viagem do nada, porque estava indo embora e porque eu estava fugindo. A ideia de desistir de tudo e voltar pra casa martelou em meu pensamento durante toda a madrugada. Ainda dava tempo de recuar, eu estava perto de casa, pensei. O dia acordou e bem, eu tava ali, louca pra viver, sair, sentir. Peguei minha mochila, beijei a Dominique e fui embora.

Chegando a São Paulo, ou formigueiro humano, peguei 3 metrôs, dois trens e um ônibus até chegar a minha próxima morada, lugar onde ficaria por mais quatro dias. O apartamento era de uma moça chamada Samuelly, que coincidentemente, morava em Campina Grande, cidade em que eu fiz meus estudos.

Samuelly foi pra Sampa estudar e ela, que eu não conhecia enquanto éramos vizinhas, ficou muito próxima de mim nos dias em que estive lá. Estava ela morando em SP a pouco tempo, então, não é difícil de imaginar como nós duas, moças interioranas, nos deliciamos cada segundo ao desbravar a cidade grande.

Eu já havia visitado São Paulo uma outra vez, mas dessa vez conheci um tanto mais dos espaços e da vida paulistana, em que tudo acontece em um espaço de segundo e o tempo corre pelas esquinas. Foram ótimos três dias, de ótimos encontros.

A viagem continuou…

Saindo da casa de Samuelly, peguei os mesmos trens e metrôs até a rodoviária que me levaria para o próximo destino: Curitiba, no Paraná. Eu nunca tinha viajado para o Sul antes, nunca tinha ido para tão longe de casa: seria a primeira vez.

Imagem: Mariana Sales (acervo pessoal)

Achei lindo, isso de ser serrado, de ser bacia hidrográfica, de ser verde, de ser frio, da entrada do estado do Paraná. Em Curitiba, fiquei na casa do meu internet friend, Jájá, que assim como eu, faz quadrinhos e tenta seguir a vida de ilustrador independente. Jájá trabalhava de dia e não podia me mostrar a cidade, mas isso não foi um problema para mim, fiquei o tempo todo andando de cima para baixo e visitando os pontos turísticos.

Eu acabava de sair de SP, onde o caos era explícito e chegava em uma cidade com quase 2 milhões de habitantes, que mal parecia ter 100 mil, por sua tranquilidade. A vida seguia em um outro ritmo. Poderia escrever um texto inteiro sobre a visita a Curitiba, pois foi o lugar mais diferente que achei de casa, culturalmente falando. Mas, assunto para outro momento, pois a viagem precisa seguir.

Até esse ponto da estrada, sentia uma sensação agradável de paz, de felicidade por desejar e realizar. Senti a satisfação de andar com minhas próprias pernas até os lugares em que eu desejava ir e esse sentimento, naquele momento, era único para mim.

Saindo de Curitiba, desci um pouco mais no mapa e cheguei à cidade de Florianópolis. Sem expectativas ao chegar na ilha, encontrei com meu amigo Augusto, amigo de longa data das terras paraibanas, que estava em Floripa conquistando seu diploma de sofrer na universidade. Augusto estava a mais de um ano no Sul e pouco vinha ao nordeste, dessa forma, pediu para que eu lhe fizesse uma visita. No momento em que subia as ladeiras próximas à UFSC eu não sabia o tanto que Florianópolis iria me mostrar.

Assim como o Jájá, em Curitiba, Augusto também não podia bater perna comigo, pois estava trabalhando duro no laboratório de engenharia. E eu, mais uma vez, fiquei andando sozinha pelas ruas da cidade. Visitei muitos museus, sebos e brechós, e assim ia percebendo um pouco do cotidiano das pessoas e ia vendo como a vida funcionava ali.

Uma nova realidade

O Sul é quieto e calmo. Pessoas respeitosas, que esbarram e pedem desculpas. Carros que param para o pedestre passar. Diante de toda a calmaria exposta, algo se agitava dentro do meu peito, para mim era muito estranho a falta de calor nos sentimentos. Eu vim do Nordeste, e parece que o calor do sol que bate nos coro da gente, também esquenta o coração. E todo mundo ama, e diz na rua que ama, até o grito de barraco no meio da rua é demonstração de amor. Se eu grito com você, provavelmente te amo e provavelmente convivemos e somos amigos de longa data. Não vou mentir, senti falta desse calor no Sul. Talvez fosse a ventania do tempo só ou talvez fosse o vento emanado de forma gelada pelas pessoas da cidade. Florianópolis, solidão com vista pro mar.

Imagem: Mariana Sales (acervo pessoal)

No terceiro dia em Floripa, visitando a famosa feirinha de quarta-feira da UFSC, eu presenciei um dos momentos mais lindos durante a viagem inteira: pessoas lindas, vendendo comidas feitas pelas próprias mãos, a maioria, veganas, ideologia que já estava muito me chamando a atenção na época. Havia também muitos jovens vendendo artesanatos e fazendo um som ao vivo. Tinha gente de toda parte e eu senti ali uma integração, era de fato uma universidade.

Liguei o celular e despretensiosamente postei assim: – Alguém afim de tomar um café nesse friozin? Ninguém respondeu. Fiz mais uns passeios por ali, deitei e fui terminar a leitura de A Cor Púrpura, livro que havia trazido de Recife, emprestado pela Dominique. Almocei uma coxinha de batata doce com carne de jaca e creme cheddar de cenoura, que estava uma delícia.

Voltei para casa, tomei um banho e fiquei esperando Augusto voltar. Fui verificar minhas redes sociais e, ao que me parecia, alguém tinha respondido a minha mensagem. O nome dele era Felipe. Ele me chamou para um café e talvez até um filme depois. Encontrar com o Felipe seria ótimo, queria muito alguém para andar comigo pela cidade e dividir um pouco daqueles instantes.

Pensei um tanto antes de ir, afinal, eu era uma mulher sozinha em uma cidade desconhecida. Tive receio, tive medo. Mas com toda cautela, resolvi seguir. Encontrei Felipe no outro dia na hora marcada. Ele era um rapaz bem legal e bem bonito também e com todo prazer, me mostrou a cidade. Conversamos sobre arte e sobre a vida. Assistimos alguns filmes. Fomos a algumas praias. Nos beijamos. Eu me apaixonei por Felipe. Naqueles dez dias que vivi em Florianópolis, eu amei.

Próximo ao dia de vir embora, também conheci Luana, uma moça muito gentil que resolveu me entrevistar, olha só, me senti uma celebridade. Luana estava desenvolvendo uma pesquisa sobre quadrinistas brasileiras e achou de bom tom bater um papo comigo sobre o assunto. Foi bastante agradável, Luana é mineira e levou para mim um docinho de leite com chocolate que só de lembrar do sabor já morro de vontade de comer outra vez.

Bem, as horas passaram e eu mal vi. Não queria deixar Florianópolis. Tentei mover mundos e fundos para ficar na cidade porque o sentimento de pertencimento me invadia. Cheguei no aeroporto com destino a São Paulo, ia para outro evento de quadrinhos, o Ladys Comics. Rodei pelos cantos do aeroporto, contei a minha saga para todas as pessoas que estavam lá, desesperada: – Olha, é que eu não quero voltar não, eu estou muito apaixonada por tudo que vivi aqui. As pessoas achavam graça de mim, mas diziam: – Se seu coração diz para você ficar, então fica! E foi assim, ouvindo meu coração, que eu fiquei mesmo.

Peguei um carro de volta para casa do Augusto, porém, chegando lá, bad news, o colega de apartamento dele não havia gostado nada da ideia da minha permanência por mais alguns dias: eu me vi em lágrimas.  Estava tudo muito intenso para mim àquela altura, me vi sem chão. Chorei um pouco, peguei minha mochila e segui para a casa da Luana. Eu estava perdida e sem rumo. Luana e suas amigas me acolheram muito bem. Com elas, eu conheci uma das praias mais lindas que já vi, a praia da Solidão, que trouxe profundamente o sentimento de calmaria.

Saindo da praia, fomos para a universidade, estava tendo cinema no bosque da UFSC, o filme era Vida sin fin, de Alejandro Jodorowski. Chegando lá, me encontrei mais uma vez com o Felipe, acho que no fundo, toda essa minha indecisão, cabia ao fato de que eu precisava revê-lo antes de ir, precisava dar o último beijo e o último abraço e acalmar meu coração tão desesperado. Assistimos o filme e bem, o adeus. O circuito SP foi assim pausado, peguei um ônibus direito pro Rio de Janeiro , uma das últimas paradas.

Chegando no Rio eu estava derrotada. Foram quatorze horas de viagem em um ônibus gelado. Eu estava de novo sozinha. De novo desorientada. Como iria conseguir seguir em frente depois de tudo aquilo que tinha sentido em Florianópolis? Era tudo tão recente, tão efêmero.

Eu já não tinha mais muita grana e os cigarros tinha se esgotado também. A sorte foi ter conhecido Raissa, através do Diego, amigo dos quadrinhos. Raissa me deu abrigo e ainda me emprestou uma bicicleta. Andamos juntas por Copacabana e batemos palma para o pôr do sol no Arpoador. O Rio de Janeiro é uma cidade linda mesmo.

Também nesses dias na cidade maravilhosa, eu reencontrei com uma amiga que há muito tempo não via. Foi importante essa volta que a vida deu para que pudéssemos nos encontrar nesse momento, em que tudo em nossas vidas estava em transição e também estava ficando mais claro. Andamos nós duas pela cidade, batendo perna de um lado pro outro como se o RJ fosse JP ( João Pessoa , capital da Paraíba). Provei com ela o melhor café da vida, no Café Secreto e fumei aquele tabaquinho orgânico, coisa finíssima. O vazio das horas ia passando no RJ e eu estava cansada, queria voltar para casa.

Dias depois regressei para SP, pois era de lá que o meu voo para Recife sairia. Fiquei ainda um dia na casa do meu amigo, também dos quadrinhos, Felipe, que me falou um pouco sobre a sua vida como desenhista, me apresentou pessoas legais, fez um rango e ainda comprou uma 51 para gente! Foi um ótimo encontro e eu adoro muito o Felipe. Adoro muito toda a galera que fez parte desse momento da minha vida, que para mim, foi tão importante.

Eu fiquei feliz, me senti bem. É muito bom isso de se arriscar, sair da zona, enfrentar os medos e mudar: saber que se pode ir além daquilo que se é. Cheguei em casa com uma bagagem cheia de souvenirs das ideias e também, com uma nova tatuagem marcada em minhas costelas: um vulcão de sentimentos, como não poderia deixar de ser. Me senti segura, conheci um pouco mais de mim; entendi meu prazer e também o meu medo.

Voltei com a vida virada de cabeça para baixo, mas estava me sentido flutuante e dona de mim, para até mesmo virar e desvirar meu mundo quando quisesse.  Sonho e escrevo em letras grandes de novo.

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Mariana Sales
É ilustradora, quadrinista e ama se perder e se encontrar nos pensamentos e nas possibilidades quando se entrega às estradas e viaja em azul.

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