Da favela da Maré para o Peru: relatos de uma preta intercâmbista

Imagem: Andreza Jorge / divulgação

Por Andreza Jorge*

Sou Andreza Jorge, tenho 29 anos e sou moradora do Complexo da Maré. Ouso dizer sempre que tive muita sorte, pois desde os 14 anos de idade me envolvo e trabalho com projetos sociais, tive a oportunidade de trabalhar em uma ONG (Organização não governamental) desde muito nova e isso foi algo muito importante para uma menina favelada e muito falante, pelo fato de ter me colocado em contato com muitas pessoas.

Foi nesse contato com o dito terceiro setor que conheci pessoas que estavam na Universidade, conheci pessoas que tinham uma carreira profissional e conheci muita gente de diversos cantos do mundo. Penso em tudo isso como sorte, porque toda minha vida poderia ter sido bem diferente, afinal, crescer em uma favela não quer dizer ter um caminho único pra todo mundo, longe disso, mas se a gente não tiver “sorte” e algum certo “privilégio” as oportunidades não aparecem mesmo não… E ai, a grosso modo, parece mesmo que tá todo mundo no mesmo lugar, sempre.

Tive privilégios, como disse, tenho uma família legal, conheci pessoas legais, puder expandir meus horizontes para além dos muros que nos cercam (literalmente, vide muros da linha vermelha e amarela), consegui ter contato com muitas pessoas que despertaram e aguçaram ainda mais a minha natural curiosidade de geminiana com ascendente em gêmeos (socorro).

Porém, com todo esse “privilégio” descrito e oportunidades a vista, eu sabia que poderia sonhar, sonhar em viajar, conhecer outros países, culturas, comidas, mas quando eu tentada trazer para realidade era realmente outros quinhentos, outros mils outros dois mils que eu não tinha e que nem poderia tirar de lugar nenhum que ia fazer falta a beça.

Sabia que fazer um intercâmbio, um mochilão, uma viagem de férias seriam sonhos que precisariam de muito esforço pra ser alcançado, não impossíveis, mas as vezes a gente não tá afim mesmo de viver se esforçando para os sonhos, porque a gente tá se esforçando a beça pra realidade.

E é isso mesmo, nesse meu esforço para realidade eu consegui estar em duas graduações públicas (formei em uma), ter uma casa, uma lar, uma filha, uma família e um trabalho que gosto muito de fazer. São esforços que a gente faz e que tornam a vida melhor, eu acho né?!

Então, esforço para os sonhos, demora um pouco mais, mas as vezes acontece, alguém sonha com você e foi assim, entrar na internet, o companheiro te marcar em uma convocatória acreditando mais do que você mesma no seu potencial para ganhar e assim foi.

Do Complexo da Maré para o Peru

Me inscrevi na convocatória do BAGAGEM para custear 50% de um intercâmbio no Peru, de um mês e meio para trabalhar com temas que estive próxima em toda minha vida profissional. Topei. No impulso claro. Desacreditando claro. Com medo pacas claro. Topei. Ganhei. (Lembra que falei da sorte de ter mais de dez anos dedicados ao trabalho com projetos sociais, essa minha experiência foi fundamental).

Quando chegou a notícia formalizada, a ficha foi caindo, as estruturas tremendo e a logística de tudo batendo na porta, a piração foi inevitável. Como vou fazer isso?

Lembra que falei que sou uma pessoa sortuda e tenho alguns privilégios?! Pensei e o trabalho? É flexível, a gente dá um jeito. E a minha casa? O aluguel, a organização das coisas? Tenho um companheiro incrível. E minha bebê de dois anos? Pronto, decidido não posso ir, tô louca? Tenho uma filha de dois aninhos. Minha mãe, meu irmão e cunhada, tios e amigos, família paterna dela e meu companheiro (já falei que ele é incrível?!) toparam, toparam sonhar comigo e se revezar na missão Alice Odara. (Adorei isso.)

Consegui. A equipe do BAGAGEM organizou tudinho, cheguei no Peru, para um intercambio ao qual eu era a única que estava lá “porque ganhei uma bolsa e não poderia pagar senão fosse isso”, acho que isso ficou bem claro ao perceber  que no meu grupo de intercambista eu era a única preta (e olha que fenotipicamente nem tenho a pele tão escura) e eu era a mais velha (um pouco passada para intercâmbio universitário) mas eu estava radiante, querendo trabalhar, querendo conhecer, querendo saber, querendo ensinar.

A língua embora tenha sido desafiante, principalmente nos primeiros dias, não foi um problema tão grande, espanhol é próximo do português e eu sou um pouco desenrolada pra essas paradas de comunicação. (Já falei que sou de gêmeos com ascendente em gêmeos?). Fluiu. Fiquei em uma família Hoss, foi o máximo, tinha mãe, pai, irmão, irmã, avó e avô. Eram simples, lindos, simpáticos e muito cuidadosos. Trocamos afetos, conhecimento, tenho certeza que deixei um pouquinho de mim lá e trouxe um tantão deles comigo. Até hoje, nas redes sociais, sempre tem aquele afeto gostoso. Saudade.

E sobre o trabalho, foi bem diferente do que eu imaginei.  A princípio a minha ideia era aprender como eles trabalhavam tais questões como gênero, educação, saúde, nas organizações e projetos por lá (eu pensei que era disso que se tratava o intercâmbio). Mas na real tínhamos um grupo de sete meninas de diferentes estados do Brasil mais duas polonesas, trabalhando em projetos determinados por eles lá no Peru, mas de forma bem livre, desenvolvendo as ações que quisessem. No começo fiquei preocupada, as meninas, como eu disse, mais jovens e com menos experiência com esse tipo de trabalho, estavam assustadas, foi quase que natural trazer essa responsabilidade para mim, estou a 10 anos realizando trabalhos desse tipo. Conversamos. Construímos juntas um plano de trabalho e desenvolvemos, foi lindo.

Preciso dizer que amei estar com essas meninas e em contato com as pessoas que estavam na organização que trabalhamos. A troca, o aprendizado, foi tudo muito legal. Mas….Eu ainda estava preocupada, queria mais, não era a minha intenção fazer algo tipo um voluntariado, na real detesto esse tipo de relação de voluntariado, sempre digo que não tenho muitas culpas da desigualdade pra livrar na hora de dormir. (Tenho algumas, mas alivio de outras formas. Sei lá).

Me incomoda às vezes essa relação porque sou favelada e sei como essas coisas costumam acontecer, não gosto de estar em nenhum dos dois lugares.

Com isso, sugeri a galera  da AISEEC, um grupo que realiza intercâmbio há maior tempão em vários lugares do mundo, que a gente fizesse uma espécie de capacitação da equipe que trabalha de fato nas instituições que estávamos fazendo oficina, porque afinal de contas a gente vai embora e essa galera vai ficar. E rolou. Foi muito bom. Tive a oportunidade usar um pouco da minha experiência e dividir com uma galera que me ensinou muito, mas muito mesmo sobre unidade, irmandade e conexão com a América Latina. (Sério isso foi libertador para mim).

Soy latina

Então, para finalizar esse texto-relato de experiência de uma favelada sendo intercâmbista no Peru por um mês e meio, preciso falar sobre o lugar. Sobre o país. Sobre a América Latina (Ui que menina prepotente.)

Eu nunca na minha vida teria pensado em viajar para o Peru. Nunca. Se eu tivesse a chance de escolher um país qualquer, jamais teria pensado no Peru, se fosse pra escolher entre países só da América latina, eu jamais escolheria Peru, se fosse pra escolher só entre países que começam com a letra P, eu jamais escolheria Peru (Viu a gravidade da situação?!).

Gente, eu acho que dificilmente escolheria alguns país da América Latina. E quando ganhei a convocatória, pensei: Poxa, podia ser o Chile né?! (Nem sei porque pensei em Chile). E é esse o ponto que quero chegar, a gente não aprende NADA sobre a América Latina de forma legal, a gente cresce querendo conhecer os Estados Unidos (Lê-se Nova York ) porque isso chega mais fácil pra gente (pra mim então, adolescente começo dos anos 2000).

Foi uma das maiores surpresas da viagem, conhecer o Peru (e todas as piadas que consegui fazer e ouvir quando falava que estava indo para Peru). Foi incrível. As pessoas, o lugar, a comida, a comida, a comida, eu disse a comida?!

Descobri que eles se dividem entre costa, serra e selva, conheci Lima, a capital que fica na Costa. (Alô Mamãe, molhei meus pés no pacifico) e conheci e morei por um mês em Huancayo, na serra, lugar que pelo nome já mostra a força que tem,  a cidade inconquistável, é o significado do nome e que trás uma história que os moradores amam contar, do povo Huanca que não foi dominado e nem colonizado pelos Espanhóis.

A riqueza de frutas e legumes. O clima frio e seco que me deixou louca nos primeiros dias e que eu morro de saudade quando tô aqui no Rio 40º graus. Conhecer lugares, tomar Inka cola (ah! O Capitalismo), tomar Cuzquenha, comer ceviche, trucha, pollo, muita papa (batata, lá é o lugar da batata.) mudou tanta coisa em mim, me deu a oportunidade de conhecer um país da América Latina linda, que respira arte e cultura, que se reflete nas infinitas manifestações culturais folclóricas que eles têm.  

Fui em uma festa popular chamada Tunantada, centenas de pessoas fantasiadas, carregando instrumentos enormes, bebendo cerveja e dançando em um frio de 8 graus felizes da vida. Amei. Cada conversa, cada fruta comida nas milhares de barraquinhas espalhada pela cidade, as crianças, as cores, os tecidos, as roupas, as mulheres, os homens.

Me vi naquelas pessoas, naquela vida em comunidade, nas conversas de esquinas e nos jantares na mesa. Me senti em casa. Fiz trilha em dois lugares, uma de 8 horas de duração e que chegava a 5mil de altitude. (Quase morri, mas é só um detalhe). Vi lugares incríveis. Me emocionei só de sentir o vento, a chuva, a neve (sim. Neve.), o sol, tudo.

 Me senti tão pertencente a América Latina (até viciei na música América Latina do grupo Calle 13), ouvia músicas que jamais teria a oportunidade de ter ouvido ou conhecido (exceto despacito que tinha acabado de estrear  e era sucesso no Peru e que me seguiu até o Brasil e também aquela “chorando se foi, quem um dia só me fez chorar” que tocava em tudo quanto é lugar, é sério). Foram tantos atravessamentos, tanto contato, tanta troca que eu também queria muito voltar pro Brasil, para contar pra todo mundo como é legal o Peru. (Gente todo mundo tem que ir).

Voltei. Muito feliz e morrendo de saudade. Fui logo ao encontro de Alice Odara e ela ainda me amava muito. (medo bobo de mãe). A gradeci a todos. Tive e tenho muita “sorte”, porque eu posso contar com pessoas que se esforçam junto comigo pra realizar sonhos.

*Andreza Jorge, tem 29 anos, possui duas graduações, é moradora do Complexo da Maré, e foi convidada para escrever sobre sua experiência de intercâmbio para o M pelo Mundo. 

 

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