Antes do anoitecer: uma curta passagem por Ouro Preto

Imagem: Mariana Sales / acervo pessoal

Era o dia 16 de novembro de 2015 e o céu inundava a capital mineira. Eu cheguei em BH no dia 11 do mesmo mês e aproveitei dias de sol indo e voltando da região da Pampulha para a Coudelaria Souza Leão. Eu havia participado do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos). O evento chegou ao fim e ainda me restavam três dias na cidade. Havendo eu já perambulado bastante por Belo Horizonte, resolvi visitar a cidade de Ouro Preto que fica a cerca de 100 km de distância.

Seu primeiro amor, você ao menos se lembra quem era?

Na noite de domingo (15) a ideia de ir a Ouro Preto começou a zumbir na minha cabeça. Me lembrei de quando eu era criança, em que folheando um livro,nas aulas de história, eu me deparei com as cidades de tradição do estado de Minas Gerais: Ouro Preto, Serra Branca e Mariana.

Eu lembro que fiquei muito feliz ao saber que tinha uma cidade com o meu nome! Conhecer Mariana era um sonho para mim. No entanto, se vocês bem lembram, no ano de 2015, mais precisamente no dia 05 de novembro, Mariana foi cenário de um desastre: rompia-se uma barragem de rejeitos de mineração controlada pela Samarco Mineração S.A., desastre esse causado por imprudência da supracitada empresa, que até hoje permanece impune. Nasci na geração errada.

Diante de um cenário entristecedor, a ida de Mariana à Mariana não aconteceu. No dia 15, dez dias depois do ocorrido, ninguém sabia ao certo o que haveria de acontecer e muitas pessoas espalhavam medo pelas ruas, com receio de que uma outra barragem viesse a romper.

Eu pensei, repensei e pensei outra vez na minha ida para Ouro Preto. Os prós é que eu estava a 100km, com muita saúde e vontade. Os contras, a cidade estava em dilúvio (BH não parecia ter sido feita para chuva) e não tinha lugar para ficar por lá.

Embarcando para Ouro Preto

Imagem: Mariana Sales / acervo pessoal

Coloquei em um grupo de caronas que precisava ir para Outro Preto e um rapaz me respondeu. No dia seguinte, o céu em lágrimas e meu pensamento mandando que eu desistisse. Mas segui meu coração, peguei um busão e cheguei na praça Ruy Barbosa, local em que minha carona me buscou.

No carro ia o rapaz e mais dois amigos dele, todos estudantes de algum curso de Exatas que não lembro o nome. A viagem foi tranquila e silenciosa. Fiquei viajando na fumaça gelada que saía das montanhas. Tudo em lindo verde: eu senti muita paz.

Se vamos realmente conhecer um ao outro, temos que realmente conhecermos a nós primeiro.

Cheguei em Ouro Preto por volta das 10h da manhã e fiquei andando pelo centro da cidade. Uma chuva forte começou a cair e eu entrei em um café. O lugar era lindinho e a vista da janela levava direto para uma queda d’água (a cidade é toda cheia de montanhinhas).

Fiquei no café até a chuva passar, visitei igrejas, museus, praças, tomei chocolate quente e comi uma trufa na Fábrica de Chocolates. Entrei em lojinhas de bugigangas e trouxe vários souvenirs para meus amigos e familiares: tudo em pedra sabão, artesanato tradicional da cidade.

Imagem: Mariana Sales / acervo pessoal

Não fiz o passeio de trem e não visitei outros museus, pois se tratando de uma segunda-feira, muito da cena cultural da cidade não estava funcionando. Andei mais pela cidade e li um livro em uma calçada. Já ia chegando o fim de tarde e eu precisava voltar para BH.

Coloquei outra vez no grupo de carona Ouro-Preto-BH e consegui mais alguém para me levar. Outra vez, um carro de jovens universitários. Desta vez, mais simpáticos: conversaram comigo sobre a cultura, sobre os sotaques e me disseram que o carnaval em Ouro Preto era uma beleza. Me falaram da república onde eles viviam e que eu poderia até me hospedar lá em uma próxima vez.

Eu achei a cidade linda, pena que a minha ida foi tão rápida. Somos tão importantes para alguns… Mas estamos apenas de passagem.

Eu tenho boas lembranças da ida até Ouro Preto, no entanto, olhando a viagem com os meus olhos atuais, acredito que talvez não tivesse coragem de pegar carona sozinha outra vez nessas circunstâncias. Penso que me arrisquei e fui imprudente. Apostei demais na sorte (coisa que todo viajante costuma fazer).

Uma dica que eu dou para as meninas é que só peguem carona com mulheres ou em aplicativos especializados, como o Blablacar, por exemplo, pois mesmo que não impeça possíveis assédios, ao menos proporciona um pouco mais de segurança por ter os dados dos usuários registrados e confirmados além de que possibilita averiguar o perfil de quem oferece a carona e até fazer denúncias.

É chato que nós mulheres que amamos pegar a estrada tenhamos que lidar com esses impedimentos. Mas, não vamos desistir de desbravar novos caminhos, pois cada viagem sozinha é um aprendizado para a vida e nisso a gente vai criando força e coragem para enfrentar o que vier. Queria que as coisas fossem mais simples…mas é sempre bom se preparar com antecedência e averiguar onde e como a gente vai dar os próximos passos.

O desejo de voltar a Ouro Preto persiste e conhecer Mariana ainda é um sonho. Espero regressar em breve.

Se você quer amor verdadeiro, isto aqui é. Esta vida é real, não é perfeita, mas é real.

As frases em destaque fazem parte do filme Before Midnight​ (Antes do anoitecer), que também conta a história de viajantes entregues ao acaso das horas.

Você pode encontrar mais textos meus aqui: www.medium.com/@marianasales

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Mariana Sales
É ilustradora, quadrinista e ama se perder e se encontrar nos pensamentos e nas possibilidades quando se entrega às estradas e viaja em azul.

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