Como o feminismo me ajudou a viajar sozinha

A reflexão que tenho acerca do feminismo é que o movimento permitiu uma série de revoluções na minha vida, em situações cotidianas, na minha maneira de olhar o outro, na forma de me enxergar enquanto mulher e também a viajar sozinha

Há muito tempo, eu já entendia o movimento como legítimo, como algo com o qual eu me identificava, e que entendia como necessário de ser propagado. Porém, isto não me impediu de reproduzir ações e pensamentos machistas, de viver um relacionamento abusivo e não enxergá-lo como tal na época. Todo esse processo de autoconsciência me foi tão doloroso quanto libertador. Foi árduo e lento, mas foi extremamente importante para consolidar este processo interno.

O fim desse relacionamento abusivo foi o estopim para que o feminismo se fortalecesse em mim e eu começasse a me considerar feminista de fato, mudando a minha forma de relacionar com as pessoas como um todo. Foi a partir deste fim que comecei a dar vazão a coisas que eu amava. Em cinco anos de relacionamento, muitas vezes me podei de fazer para não me desgastar em discussões, críticas e ameaças.

Duas semanas após o término, comprei passagens numa promoção para Buenos Aires e apesar de ter chamado algumas amigas, diante da recusa delas, resolvi viajar sozinha. Estava completamente perturbada com o término, com o meu infinito de possibilidades e sentia aquela sensação esquisita do peso da liberdade.

Como coloca Milan Kundera em a “Insustentável Leveza do Ser”. “Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

Eu já conhecia a capital argentina, tinha ido três anos antes para um intercâmbio de um mês sozinha. Porém, eu estava com ele ainda e sentia a tensão cotidiana ao nos falarmos que aquilo o incomodava e assim, deixei de fazer muita coisa por receio de críticas, brigas e abusos. É complicado demais tentar verbalizar a situação, mas é um pouco do que eu sentia. Porém, por mais que eu já tivesse morado na cidade, eu tinha um certo receio de encará-la de novo sozinha.

Viajar sozinha: minha experiência em Buenos Aires

O primeiro dia foi bem complicado, não só pela minha fragilidade emocional, mas porque tive outros choques de realidade: dormi em quarto vomitado, sem calefação ligada, morrendo de frio e acordei sem água quente disponível, me perdi nas minhas andanças ao ler um mapa ao contrário e tive o cartão bloqueado.

Mas, ufa! Sobrevivi ao primeiro dia e acabei com uma crise de choro dentro de uma igreja argentina, com missa em espanhol. Fui parar lá porque amo arquitetura, sou historiadora, porém o meu incômodo interno era tão grande que desabei! Ali vivenciei a minha segunda viagem sozinha, mas a minha primeira como mulher solteira e foi incrível demais!

Aqui me faltam palavras novamente para o que vivenciei. Tive bastante apoio, conheci três homens incríveis que me ajudaram muito com todas as minhas crises, caminhei como se não houvesse amanhã, curti um friozinho, tomei vinho, comi massas e chocolates, deitei na grama e tomei um chimarrão ao modo argentino. Voltei com saudades de tudo o que a minha memória gerou e sabendo que aquilo seria um marco de transformação.

A partir dali, viajar se tornou uma prioridade e a companhia prioritária dessas viagens, era eu mesma. Depois isso, consegui visitar o Rio de Janeiro com outro olhar ao ir sozinha e fiz o mais corajoso da minha vida: minha primeira Eurotrip, fui para a Espanha.

Não viajei mais sozinha por não sentir tanta necessidade e muitas vezes, por falta de oportunidade. Fui criando novas parcerias de vida e de viagem, o que mudou também a minha forma de viajar, tornando a experiência com outro ritmo e outros objetivos.

O feminismo me fez perceber que eu podia me jogar de cabeça no que eu queria fazer e isso se fortaleceu de tal forma que decidi criar um projeto para empoderar mulheres como eu, que gostam de viajar, mas tem receio de se aventurar e encarar a solitude.

 

 

 

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Thaís Carneiro
Ex-colaboradora do M pelo Mundo e autora do blog Mulheres Viajantes.

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