Blog Estrangeira: elas são lésbicas, viajantes e lutam por igualdade

Imagem: Fabia e Gabi, no Uruguai/ acervo pessoal

Estamos no século XXI, uma época revolucionária em muitos aspectos, mas que, infelizmente, quando se trata de respeito ao outro e direitos das minorias acaba deixando muito a desejar. Em uma época em que deveríamos estar muito avançados, uma onda conservadora assola diversos países do mundo e afeta, além de suas próprias minorias sociais, os turistas que também fazem parte dessas minorias.

Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. Todos sentem na pele o preconceito e as dificuldades de viver em um mundo que ainda insiste em vê-los como diferentes. Para quem acha que isso não é assunto de site de viagem, trazemos uma verdade. É sim! A dificuldade que os LGBTT’s enfrentam não se limita à vida cotidiana. Até no momento de realizar uma viagem, a sombra do preconceito está lá.

Foi pensando em ajudar LGBTT’s a enfrentarem os desafios e a conquistar mais confiança para ganhar o mundo que as produtoras de audiovisual Gabi Torrezani, 25 anos, e Fabia Fuzeti, 41 anos, criaram o Estrangeira, um blog de viagem com conteúdo direcionado para o público LGBTT. “É importante viajar sim, ocupar os espaços e desbravar esse mundão”, destacam.

Imagem: Fabia e Gabi, na Espanha / acervo pessoal

Casadas há três anos, elas moram em Barcelona (Espanha) e produzem conteúdo de viagens sobre destinos no mundo todo. Além disso, oferecem tours LGBTs personalizados em Barcelona. Em 2015, as duas produziram o “Vestidas de Noiva – um documentário sobre o casamento homoafetivo no Brasil”, que pode ser assistido na íntegra no Youtube.

Conhecemos o trabalho das duas há alguns meses e ficamos encantadas. Por isso, decidimos realizar uma entrevista para abordar a questão do turismo LGBTT, as dificuldades e outras questões.

Confira a entrevista com as criadoras do blog Estrangeira!

M pelo Mundo – Por que vocês decidiram direcionar conteúdo de viagem para o público LGBTT?

Gabi e Fabia –  Porque somos LGBTTs e sentimos falta de representatividade no meio de conteúdo de viagem. Pouco a pouco estão surgindo blogs e canais de viagem LGBTT, a maioria gays. Isso é muito legal, mas ainda vemos poucas coisas feitas por e para lésbicas. É impossível fugir da temática já que somos um casal de lésbicas viajantes. Então, além das dicas comuns de destinos falamos um pouco sobre a experiência LGBT nos locais que visitamos.

M pelo Mundo – Atualmente, muitos países estão passando por uma onda conservadora. Vocês acreditam que isso pode impactar o público LGBTT no momento de escolher um destino?

Gabi e Fabia –  Sim, com certeza. Só um LGBTT sabe o que é temer pela sua vida enquanto está andando na rua, seja porque está de mãos dadas com seu parceiro, ou porque está expressando sua identidade. Já é muito difícil sofrer isso na própria cidade, quando estamos de férias investindo dinheiro e tempo não queremos esse tipo de coisa mesmo. Os destinos que proíbem a homossexualidade e/ou a transgeneridade podem ser perigosos para nós. Alguns deles preveem prisão ou até pena de morte. Não significa que um LGBTT que queira muito visitar tal país por qualquer motivo nunca vá, mas com certeza a abertura à diversidade é um fator importante para nós na hora de escolher o destino.

M pelo Mundo – Em contra partida, há instituição como, por exemplo, a IGLTA que atua visando orientar empresas turísticas para que elas possam receber melhor o público LGBTT. Nesse sentido, qual a opinião de vocês sobre a importância de movimentos que atuam em prol da causa no turismo?

Gabi e Fabia –  A importância é enorme. Não só porque essas instituições mostram para as empresas como o turismo LGBTT é rentável, mas também porque ajuda a conscientizar em respeito à diversidade dentro dos negócios. O trabalho das instituições está também em mostrar que ser gay friendly significa vestir a camisa, patrocinar coletivos, empregar LGBTTs, fazer treinamentos para que os funcionários estejam aptos a lidar com a diversidade e possíveis situações de preconceito. Acreditamos tanto na importância que somos membros da IGLTA.

M pelo Mundo – Como é para o público LGBTT, por exemplo, viajar em países muito conservadores? Quais são os cuidados que vocês recomendam?

Gabi e Fabia –  Essa é uma pergunta complexa, porque depende muito do país, da cidade em si. Existem países conservadores que possuem uma cidade super aberta para o turismo LGBTT. Alguns são conservadores em termos de pensamento da população, mas não das leis. Outros são extremamente radicais, prevendo prisão ou pena de morte para LGBTTs. Depende muito. Em alguns locais é preciso tomar cuidados para preservar a integridade física.
No Egito, por exemplo, sempre reservávamos quartos com duas camas de solteiro separadas e dizíamos que éramos primas. Foi uma situação muito chata, mas como queríamos visitar o destino sabíamos que passaríamos por isso, por temer pela nossa segurança.

Dicas que damos para se preparar bem para qualquer viagem, sendo LGBTT: antes de definir o destino, pesquise muito! Além dos blogs de viagem tradicional, entre em blogs de viagem LGBTTs, para ver se há conteúdo dos destinos que te interessam. Se informe sobre a realidade local, possíveis leis e normas de comportamento, procure relatos. Assim você consegue saber antes se é um destino super friendly, com hotéis, bares e restaurantes voltados para o público gay ou se é uma cidade onde é proibido beijar seu companheiro na rua.

Blogs LGBTs em Português: EstrangeiraViaja, Bi!Viagens Cine e Viajante ColoridoSe você fala inglês pode fazer as buscas nesse idioma e irá se deparar com bastante conteúdo gringo. 🙂 

M pelo Mundo – Vocês acreditam que o fato de serem mulheres e lésbicas geram dificuldades ou medos no momento de viajar?

Gabi e Fabia –  Não necessariamente, mas pode vir a gerar. Como eu disse, depende de muitos fatores. Na sociedade machista em que vivemos mulheres sempre podem ter dificuldades ou medo de viajar. Quando essa mulher é lésbica, soma-se a isso possíveis situações de homofobia. Fazendo uma pesquisa boa antes de ir, escolhendo o destino com consciência e ficando alerta quando preciso, a viagem costuma ser bem legal. É importante viajar sim, ocupar os espaços e desbravar esse mundão. Existe um movimento bem legal de mulheres que viajam sozinhas, independente da orientação sexual, que está conscientizando as pessoas sobre as delícias e intempéries de viajar solo.

 

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Da redação
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