Austrália: o lugar em que encontrei meu eu

Imagem: Manu, em North Stradbroke Island, Brisbane, QLD / acervo pessoal

Não tenho dúvidas que todas por aqui já ouviram o clichê “para se encontrar é preciso se perder”. Pois bem. Eis que te indico a melhor forma  de se encontrar, não necessariamente, se “perdendo”: INTERCÂMBIO.

Fazer uma viagem de intercâmbio era um dos meus sonhos de criança. Entretanto, esse sonho parecia ser muito distante por dois motivos. O primeiro: o meu inglês se limitava ao verbo “to be” malmente aprendido na escola.

Segundo: o hábito de “viajar” nunca fez parte da minha cultura familiar (nem mesmo em período de férias) e era visto como “perda de tempo” por parte de muitos dos meus familiares, de forma que não teria o apoio emocional / financeiro para essa empreitada.

Sempre pesquisei os valores de intercâmbio e achava que ele nunca estaria dentro das minhas possibilidades. Entretanto, um belo dia, resolvi fazer um orçamento real numa agência de intercâmbio e vi que o projeto poderia ser viável, mas não imediato tanto que, da primeira vez que fui à agência até o dia de fechamento do intercâmbio, houve um lapso de três anos para que eu chegasse uma negociação justa entre o meu financeiro, o meu psicológico e o meu emocional.

Não foram poucas as vezes em que achava que a viagem seria realmente uma perda de tempo. Iria me formar e os meus chefes do escritório, em que estagiava, queriam me contratar logo após a formatura. Como perder uma oportunidade dessas? Sempre encontrava mil motivos para abortar a ideia da viagem.

Encontro com meu EU na Austrália

Formei em março de 2016 e, depois de conversar com os meus chefes, consegui uma licença não-remunerada no local em que trabalhava. Parti em julho/2016 para Brisbane, capital do estado de Queensland, na Austrália. Isso há exatamente um.

O primeiro motivo que me levou a optar pela Austrália era a possibilidade de obter o visto de estudos e trabalho. O segundo, é o fato de que sou apaixonada pela natureza e Austrália tem um turismo ecológico fantástico. Terceiro: sempre me interessei pela cultura australiana (fator essencial para que eu me adequasse ao local e tivesse amor pelos estudos da língua inglesa). O quarto, o clima em Brisbane era bastante parecido com o de Salvador, minha terra natal.

Permaneci lá até dezembro/2016. Parece curto mas, acreditem a intensidade de como vivi nesse país me faz acreditar que estive lá por toda uma vida. Isso porque em cinco meses mudei de casa três vezes, conheci mais de 10 nacionalidades através dos seus nativos (japoneses, coreanos, tailandeses, colombianos, chilenos, alemães, franceses, italianos, australianos, irlandeses, mexicanos, indianos…), tive uns três empregos diferentes, fiz amizades verdadeiras e viajei bastante.

Contando agora, parece fácil e divertido (talvez até seja!). Mas tenho que confessar: as tristezas foram muitas. Por exemplo: o meu primeiro mês na Austrália foi uma experiência traumatizante. Me lembro bem quando desisti de mudar para uma casa em que já tinha pagado o “bond” (espécie de caução de aluguel), o proprietário do imóvel não quis devolver o meu dinheiro ($ 600 dólares). Lembro também de alguns trabalhos que me foram ofertados em condições que jamais corresponderiam a legislação trabalhista australiana, apenas por eu ser estrangeira.

Esses momentos e outros muito piores, de fato, existiram. Dá vontade de chorar? Sim. Dá vontade de voltar para casa? Sim. Faz você desacreditar do ser humano? Sim. Não é nada fácil estar em outro país, não dominar a língua nativa e estar longe de toda uma rede que pessoas que você sabe que te dará suporte a qualquer tempo. Entretanto, tais momentos nos fazem amadurecer muito mais rápido do que quando estamos no conforto da nossa rede de proteção.

Os conselhos que algumas pessoas me davam para eu me resguardar eram clichês de estereótipos culturais tais como “não se envolva com árabes”, os “italianos são mau-caráter”, “os franceses são insuportáveis”. Com o tempo, fui percebendo que não eram as “nacionalidades” que deveriam ser penalizadas pelas atitudes negativas de seus nativos. Claro que a cultura exerce grande papel de influência em muito dos nossos hábitos. Ainda assim jamais podemos usar metonímias quando falamos de seres humanos, pois a singularidade é inerente a individualidade do ser, principalmente quando falamos de viajantes. E isso só se aprende convivendo com o diferente. E como sou grata por isso.

O que aprendi com isso tudo?

Hoje, no aniversário da minha partida do Brasil vejo que a “terra dos Cangurus” foi o lugar em que descobri a mim mesma. Lá me permitir ser o que sou e entendi que esse é o principal ímã para você atrair as pessoas que gostam de você em essência, por mais estranho que você seja e independentemente da condição social que você ocupa.  

Os momentos de altos e baixos sempre farão parte da nossa vida, seja no dia a dia, seja numa viagem de final de semana ou num intercâmbio. Uma rotina sempre existirá. Entretanto, não fosse o pouco tempo que tinha na Austrália jamais entenderia que o segredo está realmente em aproveitar cada segundo como se fosse o último. Isso não envolve qualquer tipo de inconsequência; envolve maturidade para perceber o que realmente faz sentido para nós mesmos, que nos preenche de verdade. Obrigada Austrália por fazer eu me encontrar.

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Ana Manuela Borges
Baiana, 25 Anos. Apaixonada pelo (auto) conhecimento do “démodé” à “novidade”. Amante das artes, da cultura, da natureza e das coisas simples.

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