A ancestralidade e força da menina/mulher manauense

Imagem: Pexels

Nem só de praia se faz Alter do Chão. Como nem só de floresta é a Amazônia. A lua do meu céu é brilho de Carimbó e magia quando me encontrei na ilha do amor.  Nessa teia de conexões que une caminhos, existe você, dentro de todo o meu amor, que costura a vida muito além do bem e do mal – tão valiosa quanto rara – abrem todos os rios: tapajós, amazonas e quantos navegar.

Para uma menina índia, nascida no Amazonas, corre pra lá – corre pra cá, criança, rua, problema. Gringaiada de olho na barra da saia, um giro e ôi, dois giros – tchau, dona do próprio caminho, cigana, atrás de um colo e conforto.

Andando entre esquinas me apaixono através de seus olhares descrevendo o mundo e nas marcas do seu corpo ouço a história de dezenove anos em desejos de viver, seu sotaque me conta da sua mãe, seu ex namorado italiano, dos artesanatos que vende pra poder seguir viagem em busca de um sonho e de uma reparação histórica dos seus abandonos.

Nascida na Manaus periférica, idas e vindas familiares, mudanças de casa procurando um lugar que será seu, entre suas sacanagens e festivais, chora seus desencontros, próprios da idade, próprios de um descaso político aos estados norte, de uma violência estrutural contra vivências ameríndias e do velado epistemicídio de um povo.

“Amiga, minha vó era índia da floresta, mas eu não sei qual.”

Sangue ancestral que compartilho por fios que se perderam na história, traços mais bonitos que qualquer padrão, emana das cores das suas roupas um tropical cigano de textura leve. Desliza pelos rios da intuição e não é magia em sentido figurado, é magia mesmo, materialização da vontade e no escudo protetor da pisada na terra. Não sei o quanto seu pensamento reconhece o pulsar dos elementais, mas desejo que minha palavras alcancem seu coração durante esse gesto de homenagem às formas de vida que  encontro nessa cidade.

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Laura Mendes
Abrir novos caminhos como viajante, tecer os fios das idéias como cientista social, ampliar o sentido da palavra como escritora e produzir visualidades com fêmea fábrica.

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